Tuesday, September 19, 2017

assim repito meu canto

a ti não amo e por ti paixão jamais
conjurarei
de ti não me vem amor nem pranto
por ti não respiro nem clamo
assim repito meu canto
noite sem luz onde sem vez
me chamo à ordem dos segundos
fatídicos
onde se ordena a cadena certa
o terço sem nó
em que enrodilhada no teu olhar distante
laço longo de atar-me ao pasto
onde a grama é alta e a cerca é
passo sem muro nem jardim
me vejo assim
pouco mais que um sorriso
que mal esboças nesse fandango
em que não nos tocamos
nem no princípio nem no fim
simplesmente porque
a mim não amas
e por mim não respiras nem clamas
assim repito meu canto
lugar de ser gente
em mim

Monday, September 18, 2017

os longos dedos escuros

os longos dedos escuros estirados sobre
a pele crua
onde poderia dormir meu peito
se os olhos não buscassem
a sombra dos teus cílios
que se estende infame sobre
meu sono
leve
onde amarras
raízes de samambaia que
estranhamente
nesta casa
se erguem em direção ao céu
que cresce na minha boca

Sunday, September 17, 2017

sendo o céu de um azul pérfido e

sendo o céu de um azul pérfido e
nuvem tão branca quanto as asas
do anjo
Gabriel
viajo dia e noite até às reentrâncias
da cidade velha, Havana
que vi tão perto que alguém me chamaria
cubana
mas não sou de lá nem de lugar nenhum
que do céu mais
puro e pérfido onde o agora
o ontem e o jamais
se diluiem rumo ao regato
de um hiato no vago
contorno de um abraço
onde poderíamos ter
sido
o que ninguém brada
aos sete ventos
mas Virgem
avisada calada e certa
tão linda quanto pérfida
cedo ou tarde
roubarei a trompeta
e troará o silêncio que nossos nomes ecoa

Saturday, September 16, 2017

meia hora

quando abro a boca e o vermelho
jorra abrindo raios de luz ardente
e se afogam todos os dias em que
não te verei jamais
sinto meus pés
caminhando lépidos sobre as pedras
rubras a incandescente lava
que lavra a palavra no papel
branco onde a mágoa infinda é feita
de
um
ponto
de
luz
que posso eu dizer-te
quando rubra me arrebento
na voz tão cravo e esse
cheiro de um canto de meia noite
e meia
onde não poderei jamais
dormir?

Thursday, September 14, 2017

trilha sonora

tropeçando antes de subir o degrau
ascendo até o terraço mais alto
enquanto tuas mãos me alcançam
me puxando pro chão
que balança num ritmo
diferente entre o céu e o meu
coração
meio nublado meio sorridente
ainda tratando de seguir na frente
sair antes da estação
se alçar adiante
do
sol
que já te abraça
de cabo a rabo
deixando uma trilha
sonora tão enternecedora
que choro de gratidão
porque sem borralho sou achas
que acendes
nas rochas tochas
ardentes
onde me faço rósea
riacho e rouca
de tanto gemido
que me vem da tua boca

Tuesday, September 12, 2017

o fedor

entre a cascata e o esgoto cheio das vísceras
que encontrei no meio do teu peito
descubro que escolhi a água podre
pronta por meio das tuas mãos moles
sapos que arrulhavam no fim do mercado
na praça suja por onde me meti
à caça de fruta fresca vestida de jasmim
eu tão longa e nua no algodão doce
da minha longa camisa de dormir
onde me engano que sou minha avó
e que me amo
Entre a cascata rolando gloriosa
por trás das montanhas
que subi a pulso
encontrei tuas vísceras boiando
entranhas cheias de bicho
que quase esgotaste dentro de mim
eu tão amante que fazia o que sempre fiz
me vomitando para que a fome não te alcançasse
e já tudo acabado na podridão do teu corpo
desleixado e eu ainda
me desmanchando pingo
de creme de leite de doce de côco
que engolias a rojo como se eu fosse me acabar
na tua boca
Eu tão longa e nua que me suspirava
e sumia defumada lentamente
princesa dormente urna de cristal
que no final dos finais não há quem acorde
pois minha avó me espera
e aqui é só o fedor do que chamas
amor


Wednesday, September 6, 2017

se Deus me abrir as portas

quero subir aos céus de novo
na novidade de um querer tão claro
e puro que Deus abra as portas
e eu entre
perfeita menina de novo amando
os teus passos tortos
e tuas pernas enviesadas no passeio
da minha vida.
eu luz e lírio
sem olhos nem noção do norte
a moção da sorte largada
por entre teu caminhar
sigo
esquecida do espelho
da sala de jantar
onde os querubins cantam
sem nunca se queixar
do reflexo parco da minha sombra
escura
que implora meio rouca meio puta
meu Deus
me deixe subir aos céus de novo
perdida nos passos de seus pés apertados
nesses sapatos cambados que ainda hei-de arrumar
se ao menos Deus me abrir as portas
só para depois me estatelar

noite escura

me pergunto qual a direção do teu olhar
enquanto desapareço pelos sonhos dentro
e tua voz já soa sincronizada e funda
por entre lençóis amassados e esticados
amassados e
esticados
enquanto me pergunto o silêncio perdura
tua voz corre surda e cega
e eu apenas eu
boquiaberta
estupefata
face à penumbra dos teus olhos
embotados de tanto ser certa
a nossa noite escura





Sunday, September 3, 2017

ri tanto

ri tanto quando me dei conta que não estavas
lá que o riso ecoou solto pelos umbrais das minhas
asas
que há muito não roçavam o chão do céu
onde me espanejo
agora
tão ridiculamente alada
que nem sei se eu era de verdade
ou se vinha lá do fim da estrada
quando se acaba o conto de todas as fadas

Thursday, August 31, 2017

variations on farewell - III

because you must remember
you said goodbye
now
i have to stay outside
and knowing i cannot try
my body cries and crawls
and tears me
from the inside out
until my entrails spill on the floor
the bed
the sheets
and above all
inside my head
that drowns in
the hell
of being
no more
nowhere

variations on farewell - II

you said goodbye so early
Spring had barely started
she said goodbye so late
Summer was dying
in the meanwhile
Winter frost me into nothing

variations on farewell - I

you told me it was the last time
and because i do not like goodbyes
the last time had been already
you told me it was time to go
and because i hear you right
the time to go came before
you ever again had to say no

talvez anteontem ou

ontem minhas pernas tremiam movidas
talvez a sons de pianos ocultos
dos nossos ouvidos ainda
ontem minha boca queimava na ânsia de escutar
tua voz ressoando na minha garganta
criando túneis embrenhados
de céus e
das ternas tenras lentas aguadas entranhas
que na mesma voz te ofereço
como se nada fora


antes de tudo

quero escrever para você antes que tudo comece
antes que tudo se acabe
quero deixar essas notas inscritas no
corpo do olhar
que não entendo direito
que só sinto de permeio
de frente e de trás
e por onde a paz me penetra
em lugares tão escuros
que a luz nunca acerta
mas que você rege
numa orquestração destra

Saturday, August 26, 2017

permiso

permiso
mientras pienso en ti
pensando en mí
estirado en tu sofá
tan feo
el sofá tan
sucio de tantas veces
que te estiraste desnudo
en él
jodiendo sin más
una cualquiera
que te mira
viéndote el rey del sofá
mientras tu la jodes
y piensas en mí
pensando en ti
estirado en tu sofá
permiso
dices
mientras yo escribo
una vez más
sobre ti
muerto en el sofá





en español

tengo que escribir en español
hacerme tu
saber todo que te va en el alma
todo de Marías
todo de la batalla
que nos espera
a cada dia
en que hablo português
y me hago una cosa cualquiera
que no es tu
para que yo siga
tengo que hacerme
otra
otro
para que sigas
habla otra lengua
y serás otro
y quizás se te olvide todo
todo el dolor
de no tenerme en tus brazos

Monday, August 21, 2017

a felicidade são sons

Escutando vocês dois
ouvi nós três
e logo vi
que a felicidade são sons
rugidos de risos se enroscando no ar
entre a minha voz e a vossa boca
recriando vida que não concebi
refazendo um samba que não entrevi
feito de tons e resquícios de dedos
que fazem de uma voz um templo
múltipla gravação de um tempo
tridente
onde
escutando vocês dois
ouvi nós três
um riso
em três entretons
de cores
de acordes
e rugidos
tão intensos
tão profusos
tão certeiros
que se acaba na hora
essa história
do amor
como se fora
a felicidade que demora
a felicidade
meus cantores, sou eu, agora
escrevendo
que escutando vocês dois
ouvi nós três
a felicidade
é esse som
rugidos de risos
entre o ventilador
o violão
e a nossa boca solta

Sunday, August 20, 2017

de ti para mim

e dizer tudo sem que isso seja sequer
um terço
do rosário de tudo
o que não te digo
porque sou mulher de palavra
e jamais
direi
nada
mas as palavras desamadas colam-se ao meu corpo morno
e caem no chão tão desamparadas
que tenho que levantá-las erguê-las
amá-las
e entranhadas em mim vou escrevendo
sabendo que um dia nem o meu poema
nem esta miséria deste silêncio
ensurdecedor em que não dizemos nada
mudará a Ordem das coisas imutáveis.
a Outra
essa
manter-se-á impávida
lívida
quase paralisada.
como eu.
quando finjo que digo
só para fingir que existo
de ti para mim






Monday, August 14, 2017

Sublime criação

te amo aqui com o amor que eu criei
te amando cada dia mais do que antes
porque sei
hoje
que posso te abraçar nos meus braços
sem abraços
posso te amar sem teu corpo nunca
tocando nem vendo nem cheirando
sei que este amor inteiro e profundo
é teu
porque assim o criei
exaltei
reguei
regularmente
sem precisar
de mais
do que a tua ideia que ondeia
perfeita
na solidão eleita
que escolhi
para mim

a ordem do desassossego

Talvez tenha recebido a ordem do desassossego
talvez seja essa a ordem gloriosa da minha vida
apagada, às vezes tão escura que nem eu mesma
me vejo frente ao vidro sujo
e velho
onde fiquei
sem
ti
Tu eras para mim a luz que fingia
ser a do menino
que eu embalava
enquanto tu mesmo
me embalavas
na ilusão do teu amor
por
mim
Mas como foste lindo
que cachorro corredor
latindo e me lambendo
foste
que saudade de quando
te enganavas que me amavas
que lindo eras meu amor!
Agora, na minha cama enorme
reparo que o desassossego dessa coisa
que de amor chamavas
se instalou nos lençóis
nas cobertas nas almofadas
me deito e não entendo nada
só fico ali desassossegada
tentando entender afinal o que era isso
que de amor chamavas
premiada com a ordem do desassossego.

Thursday, August 10, 2017

que dó!

lentamente sinto o meu amor a cair de cansaço
da prateleira onde o livro que te comprei
se enche do meu pó e das vozes
que povoam os livros
quando não te encontro em mim
fito-me sem máscara nem sono
e pergunto-me quem serei
agora que não tenho mais quem
me leia
antes de não dormir
como sempre não dormia
embora às vezes me aninhasse
no teu colo
e o mundo se fazia tão mudo
que até o livro sorria
e desfolhava a madrugada
e eu só queria
que ao menos o teu cheiro
não fosse mentira.

fibromyalgia

i don't talk about it often
and i do not carry a cross
in front of my head
no one sees it
not even me
i look closely onto the mirror
and there's maybe a frown
that gives it away
before 5 pm
before i tumble in-between
my own arms and legs
before i howl inside like
a mad dog
about to be put down
but no one puts me down
end this misery
i ask
end it
i can't stand the pain anymore
but no one can find it
for it hid so nicely inside of me
only myself can feel it creeping from all sides
but not even myself can pull it out
can you help me?

i'm afraid not,
that was the answer he didn't utter
he just walked away
and has never again
returned a single phone call

Wednesday, August 9, 2017

morrem 12 mulheres por dia no Brasil

me ajuda, me afoga na beira do lago
onde me levaste noite escura a passear
me ajuda, me joga da tua janela
tão alta onde costumavas me amar
me ajuda, me bate me odeia
grita coisas ruins enquanto o barulho
da batedeira
ensurdece os vizinhos
e eu já calei até meus suspiros
porque não ouço o som da minha voz
me acaba logo com isto
morrem 12 mulheres por dia no Brasil
que diferença faz mais uma menos uma?


Sunday, August 6, 2017

quisera fazer-te feliz

quisera fazer-te feliz
toda a vida
todavia
os dias foram
curtos
e hoje
sem saber se nasceste
ou não
mando-te beijos de rosas
brancas e
abraços de manjericão
brindo-te à vida
que te trouxe
pouco
ao meu lugar
e muito embora
quisera ter-te feito
feliz
toda a vida
não tenho
nem como
saber
se respiras
o mesmo ar
que daqui
se expira




Saturday, July 29, 2017

para sempre

a ti amarei sem olhos e nem pejo
por ti esperarei sem horas e sem desejo
e quando o príncipio for o fim
e não mais noites hajam
desfazendo meus sonhos
pela madrugada
ainda assim
seremos nós
que nem
a morte
desata

Wednesday, July 26, 2017

reflexo

vivo
contigo contido no canto obscuro da janela
da minha sala
que eterna
nos espelha contra os vidros mil
que daqui se contam estrelas
vivo
comigo ida da moldura clara
do vidro da janela da tua sala
que te espelha inteiro
nos braços dessas mil mulheres onde te inventas
e que daí te contam homem
sombra obscura
do retrato que faço
de ti
vivo
conosco
sem reflexo algum
que não seja o do meu amor
perfeito
em nenhum lado do espelho


Sunday, July 23, 2017

Dia

não te pergunto já nem na palavra nem
tão pouco na ausência ou na ida noitada
em que mal sonho com a tua escapada;
sem a bondade do dia na simples
interpelação matinal
não tenho desejos de ser gente
e nem tão pouco a morte procurar;
sem a esperança monótona
da tua quase mudez mais não quero
que a chávena do meu café
turbilhão concêntrico
onde ainda te revejo
à medida que as colheres de açúcar
se derramam
e calda fazem
da semente onde nasce a madrugada.
De ti
sobra apenas a doçura do meu café.

"amo-te tanto meu amor, não cante o humano coração com mais verdade"

Na antecipação de segunda-feira
não te falo no domingo
nem no sábado tenho nada a declarar
sexta-feira deixei-te as réstias do
Caminho das Cruzes
e na quinta-feira ainda havia
porque te chamar
quarta-feira eras minha e o
nosso dia infindo
num segundo por passar
terça-feira amada glória
a nossa história
que não posso respirar
segunda-feira à minha beira
que te imploro um só olhar.
E assim se foi teu amor profundo
nessa Semana Santa
em que me cri missa e altar.

quando a voz

quando a voz se extingue entre a lâmpada
da miséria e o surto de febre já nem amarela
pouco mais nos resta do desamor
da porrada da desgraça do corpo
esquecido à beira da porta
da entrada
quando perdemos sílaba a sílaba
o último rastro do afeto
em forma de apelo
de oração ou crença
em qualquer dia menos triste
que o de hoje
para quê
pergunto-me eu
para quê continuar
a senda desta vida
tédio e mágoa de não se ser mais nada
do que aquilo que se é?

oferenda

deixo-te ao menos a palavra vazia
o silêncio pleno, o mundo tão cheio
de nada que brota o cimento 
das rachas frias da calçada

Tuesday, July 18, 2017

die(t)

if I don't die in your arms
the first time
please kill me
with silk and milk
after you feed me bees and
cut my limbs free
with one stroke
one word
one bite
from the mouth I desire

Sunday, July 16, 2017

nada digo nem nada direi e no silêncio

nada digo nem nada direi e no silêncio
infindo assim te amarei
sem que de trocas nem medos
se encha a aurora o espaço ou o tempo
sem ontem
nem hoje
e sem tão pouco amanhã
sem palavras nem rosto
esperança morte e saudade
quieta estarei em descrente paisagem
lugares de musgos rombos
ruínas onde um dia alguém mais
há de passear
e um dia à tardinha
um esquife encontrar
e se ainda escrevo
é apenas para me castigar.

Saturday, July 8, 2017

e amar-te até sem amor

e amar-te até sem amor
nem voz
nem vez
não quero tão pouco ser tua
que possessiva seja a língua
do céu da tua boca
que eu quero apenas
nada ser
nem tempo saber que seja
isso é o que quero
dar-te
nada
envolta na ponta dos teus dedos
na escuridão dos teus escombros
já ida a graciosa rosa
da boca
em que
mal te beijei



Wednesday, June 21, 2017

silêncio

a coisa mais linda do mundo
é a tua voz
a milhares de quilómetros de distância
no meu ouvido
ouço-te e a luz faz-se sol
e o mar abre-se em leitos de rios
por onde correm meus sonhos
e passos de cegonha
grávida que me sinto
do meu nome
na tua boca
a segunda coisa mais linda do mundo
é sentir-me amada
tanto tão perto tão puro
esse amor profundo
quando nem sequer
me acenas
do poço fundo
onde nos atirei
primeiro a ti
depois a mim
na esperança vaga
que no soturno fundo
tua voz troasse
e de lá ecoasse
meu nome
no escuro
a coisa mais linda do mundo
é a tua voz
a milhares de quilómetros de distância



Tuesday, June 20, 2017

lembra-te que é melhor amar-me assim

lembra-te que o meu corpo é feito de nós
e presilhas
que o meu leito são areias grossas
onde ralo horas de horrores lentos
lembra-te também das lautas lágrimas
de tantas dores que se acumulam cachoeira
adentro
lembra-te que não posso nem
beijar-te
senão me hastear em banquinhos
e escadotes
que por entrelaçados degraus
me alçam dos abismos dos dias
e noites sem fim
em que só a dor se lembra de mim
lembra-te que é melhor amar-me assim
sem corpo sou fiapos de renda
onde dormes entrançado em mim

a delicadeza com que me beijas os pés

a delicadeza com que me beijas os pés
é feita de rosas pétalas sépalas e outras coisas que não
sei o nome
mas de que conheço o cheiro
tão denso e lento quantos os cuidados
que adivinho entre os silêncios
que me dispensas por minutos
e que hoje se fizeram horas e anos
condensados nos olhos nossos
lobos mansos de dedos grossos
que tecem sem medo
mantas de amar sem tempo


conhecendo-te tenho mais ou menos certeza

conhecendo-te tenho mais ou menos certeza
absoluta que me chamas
por entre beijos de paixão e ganas
no escurinho do teu quarto
criado à nossa imagem e
semelhança
conhecendo-te vejo-te claramente
ao fogão
mais ou menos nú
de novo chamando-me entre o manjericão
e os ovos que cozinhas
despudoradamente
para essa menina
conhecendo-te tenho mais ou menos certeza
absoluta
que hoje o telefone não toca

apaziguar-me-ia um vestido de rede

apaziguar-me-ia um vestido de rede
com uma longa cauda de sereia
e conchinhas que de leve se passeassem
sobre a fauna do meu jardim
tão mareadamente costurada
em linhas de pescador
que tu só tivesses que lançar o arpão
para me encontrares
cantando

se pudesse

se pudesse ao menos dar-te um filho uma filha
uma criatura como a minha leve e tonta
e cheia de graça
ela tem esse condão de aliviar a escuridão
da minha alma
se pudesse amor dava-te assim
uma menina
como a minha
e não seriam tão amargas tão mesquinhas
tão nojentas
estas secas entranhas

aprendo a levitar

aprendo a levitar entre uma linha e outra
entre ver-te chegar e ver-me ficar
recusando o movimento pendular
em que ambos nos afogamos
quase inertes
perdidos
na alucinação de nos transcrevermos
de
tão
longe
entre uma linha
um espaço em branco
e uma letra de qualquer cor
reza
o absurdo de se ser gente
melhor levitar
entre
o ir e o voltar

Sunday, June 18, 2017

de revés vejo as rochas, o musgo

de revés vejo as rochas, o musgo
sinto-me resvalar do muro
e cair sobre
os picos duros
quase mais duros que os meus mamilos
de espanto subidos
por entre o decote do vestido
onde se passeiam tuas mãos
já esquecidas
do meu corpo
morto
no chão

subo até ao décimo primeiro andar

subo até ao décimo primeiro andar
subindo as escadas duas a duas
ofegante e rindo
e quando chego lá no alto
atiro-me pelo céu e
esparramo-me no chão
e de novo subo até ao décimo
primeiro andar
e outra vez me atiro
e tantas vezes são
que desistes de me dizer que não


chegaste-te e abraçaste-me

chegaste-te e abraçaste-me
e ali nos ficamos em pé
no meio do olhar da menina
que sorria e nos via tão
pequenos tão raros e queridos
tão adolescentemente
amantes que nos amava por si
há coisas assim
tão belas
que nos fazem esquecer a cólera
divina
que sempre se arrasta sobre mim


Saturday, June 17, 2017

canibais

falo de quem se senta à mesa e festeja
comendo a carne da sua carne
lambendo os ossos de quem os pariu
chupando tripas dos que nos chuparam
a língua
amaram os corpos
e delicadamente tocaram
o cerne do ser do seu irmão
falo de quem aos seus ama
para além da morte
e que vinda esta se faz vida
ingerindo
deglutindo
saboreando
sangue, braços, pernas
coração e vísceras
falo de um amor
que se expande
de forma nunca vista

Thursday, June 15, 2017

refrão

vou dormir, enquanto durmo
não escuto o silêncio
a que me votaste

queria chorar toda a noite, como dantes

queria chorar toda a noite, como dantes
deitar-me soluçando e não dormir
de olhos molhados e peito arquejando
a penas
ouvir o eco do fio das lágrimas
sobre as cobertas frias
húmidas de tanta noite em claro
queria chorar até morrer
como sempre chorava
esperando que chegasses

entre os vossos quartos

se pudesse deitava-me entre ti e ele
deixava-me ser nada e tudo
para que me amásseis assim
de carícias tais que eu fosse
o vosso robe o vosso pacto
unguento de leite e bolachas
maria
se pudesse deixava-me de
conchinha
entrelaçada em vossas mãos
estendidas dos quartos na esquina
deitava-me de
algas marinhas meus cabelos negros
passagem de amor entre um ninho
e outro
eu nunca gente eu nunca nada mais
que amante amada muda
esvoaçante entre os umbrais
e todas as manhãs pardal seria
até que de noite musgo de novo
voltaria
e entre os vossos quartos
de novo
amor vos faria

as mulheres são de amar para sempre

no silêncio da manhã de sol
onde o degrau da porta da entrada me aguarda
sento-me com o meu café
e apercebo-me escutando
a voz grave de minha bisavó
que ainda ecoa por todos os quartos
na sala e na cozinha
que apenas as mulheres são de amar
para sempre
que os homens
são de amar
de repente
e que de repente se vão
mas que as mulheres se amam
lentas fundas impávidas e até ao fim dos tempos
tão somente haja coração

penso que morreste

penso que morreste e que se calaram
as vozes porque não há de onde se ouvir
espectro fantasma assombração
vejo-te caído pelo chão já noite escura
soçobrados braços de quem te socorra
agora que a mim empurraste vida afora
para os braços de outro qualquer
fula furiosa enfurecida
fica-se-me o grito mudo
atravessado na garganta e decido
que quero comunicar-me com Deus
perguntar-lhe se é verdade, se morreste
e que assim sendo solicito
formulário preencho, cumpro todos
os requisitos
e que me faça a delicadeza
de me transferir a chamada às profundezas:
filho duma puta como pudeste tu
deixar-me
aqui?

Tuesday, June 13, 2017

quiero bañar

quiero bañar
mi rostro
en tus aguas
seguir tu lluvia como si yo estuviera 
muerto 
de tantos inviernos corridos
transcurridos
en mi boca
y tu fueras gota y mar
sobre mi 

the morning was like sunshine and cream and popsicles

the morning was like sunshine and cream and popsicles
together
with wild screaming
because you know me in places i do not
you make me want to do things
all these things i do not know how or what
and then 
making love to me again
before leaving 
was like you weren't leaving
and i felt wanted
and i needed to feel wanted
by you
the morning was my full day
how was your morning?
full was my morning
of you
i wanted to need you
i wanted you
I didn't leave when I left
again we made love
and then
these things that happen that i don't know
I do things that I think you want
because I discover places i didn't know existed
screaming wildly muted
together
the morning was like sunshine and cream and popsicles

the wake

i'm sorry i'm not the saint i wanted to be
for you
i'm sorry i'm not brighter lighter
and filled with lilies
and book pages with hearts on the side
i'm sorry i can't be that nice
even though i would gladly
die for you to understand
that it is only because of that
that i am
perfect
for
you
but because i am kinder
and darker and my love is made of flesh
muscle and blood i will let us go
i will arrange for our funeral
       bring crying old women
          to mourn us right long and loud
but remember
                                  remember
                   remember
once the wake ends
and the bodies are buried
Easter is no more


nem um silvo, nem um ai,

saudade do sonho que em ti não acorda
o sono é ido e o silêncio impende
e nesta vida não tenho como dormir jamais
nem um silvo, nem um ai,
o silêncio oferta de tua língua esperta
e o rugir do meu querer que desespera
surdo nos lábios desbeijados da aurora
crua e fria a cada dia
nem um silvo, nem um ai,
e assim me espanto no silêncio
sem quebranto onde nada mais faço
senão lançar-me ao furor do mar e
esperar, resignada, que
quando de lá me não pesquem
em alba madrugada
tu venhas
e haja um silvo, haja um ai
que por entre as ondas do mar
não se ouvirá jamais

grávida

imagina-nos as três, tão iguais que
seríamos como gotas de água
onde se lavam pecados se lambem feridas
e se segue de cabeça erguida
porque essa coisa de ser mãe de duas meninas
tão profundamente iguais que mais pareceria alquimia
é uma coisa tão transbordantemente gloriosa
que me sinto prenha de ti
apenas vendo-te

Monday, June 12, 2017

perdendo-me

cansei-me de te escrever cansei-me de te dizer
por entrelinhas nas linhas na boca na carne
               que mais ninguém conhece como tu
Cansei-Me estou farta Doente
deste interregno instante
em que me perdeste
muito antes de eu ter partido
em que me perdeste
muito antes de eu ter ido
quando por ti Sorvia
a fome e a sede
e Solidão tão abjeta que nem a mim mesma
me queria por dama de companhia
Cansei-Me
hoje
de tanto cansaço que
vomito
golfadas
do nada
em que não me levas comida à boca

Sunday, June 11, 2017

só ainda, nada mais que ainda

que graça desgraçada seria se tu
de todos os que não me podem ter
e que ao redor de mim se passeiam
como se eu fosse sua
que graça desgraçada seria se tu
me perdesses
só porque um dia
eu ainda não tinha chegado
ainda

que bom seria abrir a janela

que bom seria abrir a janela e deixar-te
entrar
em
mim
mas
sabes (?)
dentro das portadas
, que deixo ainda assim
abertas
de par
em par,
já deslizaste em segredo
tão de mansinho tão de permeio
que o que me aflige
de longe
quase como um esquecido trejeito
é que janela afora
tua vida rola
e meu peito é escasso quase osso
quase oco trecho de outro roteiro

o que já houvera de ter sido

vou casar-me de branco e a luz há de
chegar aos recantos onde nunca me vi
iluminada e doce como sempre houvera
de ter sido, tão cheia do dia que há de
vir que transfigurada estarei água
límpida em teus braços meus
e quando te espelhares
em meus mil reflexos de ser
sem rosto
me encostarás contra o peito
e o amanhã não será dia
mas apenas amor
puro
espuma espanto e tudo
o que já houvera de ter sido

Saturday, June 10, 2017

de onde?

pergunto-me de onde me vens com essa luz
que me atravessa e me faz rósea glória
de sol e beijos
de onde saíste tu com essa força que
me faz borboleta gaivota e pena
pescador passarinheiro séria
força bruta de boca fruta e
outras coisas tais que talvez
não fosse capaz
não houvesse esse querer
em ti
que tão simplesmente se faz presente
e eu já indo como oferenda rubra
sem laços que desatar precises
pois já me ofereço nua
como se não houvesse traje
que depois de gala investidura
baile e qualquer coisa dura
que em mim se fará sonho
passe em claro a noite escura
não venha afinal ser palha
fogalha incêndio que a distância não cura

a casa

voltar para casa
encontrar a casa
ficar na casa
fugir da casa
não ter casa
não ser casa
voltar para casa
e não encontrar
a casa
fugir do ser
esquecer o ter
e de novo correr
só para ter o que fazer
enquanto não morrer

Friday, June 9, 2017

o amor primordial

amar a carne da minha carne
beijar a minha boca na tua boca
beber-te a saliva como quem
simplesmente engole
o que desde sempre era
nosso
tocar-te as mãos como quem
dedos ancestrais anela
remexendo a areia
rindo e gelada a água
em que fervemos o sangue
do mesmo lugar nascido
atávico o ponto onde
te reconheço lindo
E assim sei que sugar-te seria
remédio divino destinado
a trazer ao mesmo lugar
o relógio de cuco e
nosso
primevo folguedo de meninos

infindo

às vezes penso que me abandonaste de fato
que aqui me deixaste às mãos de todos os
que me querem
que me precisam
que me desejam
mais do que o
ar
e o
próximo dia
penso que esqueceste
que era para ti que me vestia
me despia passeava cozinhava
lia e lentamente morria
na esperança que voltasses
antes que o fim chegasse
que pena
rezo a Deus que te alumie
aos Orixás que te abram
os caminhos
ao tempo
que seja curto
e que o teu nome seja ainda o do amor
infindo

talvez por misericórdia

talvez por misericórdia, talvez por discórdia
entre minha voz de menina e minha força
ainda não inteiramente perdida
revolvo o lixo
limpo incansavelmente
como se a tua vida dependesse dessa
tarefa gigantesca as minhas mãos em escaras
as minhas costas laceradas e tu para mim
sorrindo
como se o mundo não fosse este mísero
inferno sofrido até ao último de todos os
círculos
Que fazer de tanta ausência
que não há já peso que te traga ao chão?
Voas incontinentemente leve e graciosa
e eu rato de esgoto
ainda
roendo os restos que deixaste esquecida
por entre as dobras dos lençóis e
a minha voz prometendo querida
que regressar
regressaria
Vinte anos volvidos
puta velha mentirosa aflita
cansada inútil sombra de inúmeras
vozes já jazidas
acabo-me na imundície da tua casa
esperando que por pena contigo me leves
e que em dueto
voemos
por sobre a estrumeira desta porca vida

Wednesday, June 7, 2017

o inferno refeito leito

o inferno refeito leito onde nem descansas
nem deixas que se pouse teu raro preito
que balança e ousa fazer-se
cadeira manca comida turva facas a eito
por entre os lençóis e teus seios
e eu abrindo o chão por entre
terras pratos e podres vestes
sabendo que não sou voz celeste
sabendo que não trago preste
nada mais que a ilusão dos dias que virão
em que nem limpezas nem podridão
te façam carne branda esperança de salvação
pois apenas às cinzas que se alumiam
de plásticas flores e solenes dores
ofereces sincera tua plena devoção
Enquanto isso limpo teu leito
refeito inferno de minha velha gratidão

where are you?

amidst hell i found you
your white face lost in-between the sheets
hiding the tears from seeing me leave
stolen from your open arms
just to be swept across time
and again land amidst your tears
dropping from my eyes instead
yours so dried and lost
i wonder if you are still there

Sunday, June 4, 2017

águas lusas

sem ter mais como chegar a ti
revolvo a terra empurro solo
mergulho no rouco do ventre escuro
e inspiro o
fundo
lago das águas lusas
que permeiam o recôncavo do meu ser
desde há milénios
troco o ar por essa água límpida
que nos faria peixes da aurora
e já escamas já guelras
desponto uma vez mais
ao de cima
expirando sobre o seco rio
cujo lenho abri
a água onde nadarei
de volta
para ti

Saturday, June 3, 2017

Odeio-te animal

Odeio-te animal tenho-te uma raiva que era capaz
de te desfazer à dentada
não te ponhas a pau não que vais ver
se te apanho à esquina o quanto
hás de chorar e soluçar enquanto te arranco
os olhos com pauzinhos de comida chinesa
chora para ai pedaço de merda
que quem me comeu e cuspiu
como se eu não fosse a Virgem Santa
que sou
não merece mais que levar um par de cornos
pelo cu dentro
Lindo poema este!

Canso-me de tanto me refazer em segunda voz

Canso-me de tanto me refazer em segunda voz
crio-me na minha mesma criação lírica
esperando que a ópera se desenrole
à laia de filme de lotação esgotada
um final feliz à força de forçar a voz ao sim.
Mas retorna a memória de que o sofrimento é
sina minha e obrigo-me às linhas
escritas com lágrimas frias.
Ponto a ponto
vírgula a vírgula
aceito a nostalgia das camélias
para onde me empurras muito embora fuja ainda
de todos os outros braços que para mim se estendem
de todos os ouvidos que de longe me chamam
enquanto contemplo teu amor eterno que definha
frente à campa onde me enterras, viva.
Escrevo que irei para te agradar
deixando para trás a minha voz sumida
perdido já o dó de peito
em que ainda dizia que fazias de mim a mulher mais linda
Cansada, tento, apesar do tempo,
de novo, e ainda, a segunda voz,
onde quem sabe não se sinta tão triste
esta nossa dramaturgia.

Thursday, June 1, 2017

matei meu pai lentamente

matei meu pai lentamente
atado ao tronco de uma árvore
lentamente o depelava
e dia após dia colocava
larva após larva em suas feridas
pungentes
por mim lavradas a gosto
minha mãe deixei
que se afogasse
em poços de lama e serpentes
enquanto por mim clamava
e eu me ensurdecia qual estátua
de sal
assim foi
ou imagino que fosse
porque outra razão me castigarias agora?

confesso, no silêncio do desamor

confesso, no silêncio do desamor
nada me interessa
nem a cor da cidade nem o sabor da maresia
amputada faltam-me desejos de porto
de ser barco ou flor da metrópole
que me viu nascer mas que nem por mim
se comove
ou se agita
confesso, não sou bote de andar à deriva
nem no Tejo que me aninha
quanto mais no teu peito
que só sinto meu se se abala inteiro
não sei meu amor que te diga
Lisboa é linda
mas no silêncio do desamor
falta-lhe vida

Tuesday, May 30, 2017

sem bússula

me agarro com todos os pelos todas as unhas
todo o ar que atravessa tua boca de tanto respirar
dentro da minha
e
me afundo sem boia de salvação
nem bote salva-vidas
à força de tanto inspirar a certeza
com que finalmente me deixo baldear
qual escuna entregue à sorte do mar alto
ventos
e o apelo
evidente
do horizonte aberto
rumo às tuas ilhas