Wednesday, June 21, 2017

silêncio

a coisa mais linda do mundo
é a tua voz
a milhares de quilómetros de distância
no meu ouvido
ouço-te e a luz faz-se sol
e o mar abre-se em leitos de rios
por onde correm meus sonhos
e passos de cegonha
grávida que me sinto
do meu nome
na tua boca
a segunda coisa mais linda do mundo
é sentir-me amada
tanto tão perto tão puro
esse amor profundo
quando nem sequer
me acenas
do poço fundo
onde nos atirei
primeiro a ti
depois a mim
na esperança vaga
que no soturno fundo
tua voz troasse
e de lá ecoasse
meu nome
no escuro
a coisa mais linda do mundo
é a tua voz
a milhares de quilómetros de distância



Tuesday, June 20, 2017

lembra-te que é melhor amar-me assim

lembra-te que o meu corpo é feito de nós
e presilhas
que o meu leito são areias grossas
onde ralo horas de horrores lentos
lembra-te também das lautas lágrimas
de tantas dores que se acumulam cachoeira
adentro
lembra-te que não posso nem
beijar-te
senão me hastear em banquinhos
e escadotes
que por entrelaçados degraus
me alçam dos abismos dos dias
e noites sem fim
em que só a dor se lembra de mim
lembra-te que é melhor amar-me assim
sem corpo sou fiapos de renda
onde dormes entrançado em mim

a delicadeza com que me beijas os pés

a delicadeza com que me beijas os pés
é feita de rosas pétalas sépalas e outras coisas que não
sei o nome
mas de que conheço o cheiro
tão denso e lento quantos os cuidados
que adivinho entre os silêncios
que me dispensas por minutos
e que hoje se fizeram horas e anos
condensados nos olhos nossos
lobos mansos de dedos grossos
que tecem sem medo
mantas de amar sem tempo


conhecendo-te tenho mais ou menos certeza

conhecendo-te tenho mais ou menos certeza
absoluta que me chamas
por entre beijos de paixão e ganas
no escurinho do teu quarto
criado à nossa imagem e
semelhança
conhecendo-te vejo-te claramente
ao fogão
mais ou menos nú
de novo chamando-me entre o manjericão
e os ovos que cozinhas
despudoradamente
para essa menina
conhecendo-te tenho mais ou menos certeza
absoluta
que hoje o telefone não toca

apaziguar-me-ia um vestido de rede

apaziguar-me-ia um vestido de rede
com uma longa cauda de sereia
e conchinhas que de leve se passeassem
sobre a fauna do meu jardim
tão mareadamente costurada
em linhas de pescador
que tu só tivesses que lançar o arpão
para me encontrares
cantando

se pudesse

se pudesse ao menos dar-te um filho uma filha
uma criatura como a minha leve e tonta
e cheia de graça
ela tem esse condão de aliviar a escuridão
da minha alma
se pudesse amor dava-te assim
uma menina
como a minha
e não seriam tão amargas tão mesquinhas
tão nojentas
estas secas entranhas

aprendo a levitar

aprendo a levitar entre uma linha e outra
entre ver-te chegar e ver-me ficar
recusando o movimento pendular
em que ambos nos afogamos
quase inertes
perdidos
na alucinação de nos transcrevermos
de
tão
longe
entre uma linha
um espaço em branco
e uma letra de qualquer cor
reza
o absurdo de se ser gente
melhor levitar
entre
o ir e o voltar

Sunday, June 18, 2017

de revés vejo as rochas, o musgo

de revés vejo as rochas, o musgo
sinto-me resvalar do muro
e cair sobre
os picos duros
quase mais duros que os meus mamilos
de espanto subidos
por entre o decote do vestido
onde se passeiam tuas mãos
já esquecidas
do meu corpo
morto
no chão

subo até ao décimo primeiro andar

subo até ao décimo primeiro andar
subindo as escadas duas a duas
ofegante e rindo
e quando chego lá no alto
atiro-me pelo céu e
esparramo-me no chão
e de novo subo até ao décimo
primeiro andar
e outra vez me atiro
e tantas vezes são
que desistes de me dizer que não


chegaste-te e abraçaste-me

chegaste-te e abraçaste-me
e ali nos ficamos em pé
no meio do olhar da menina
que sorria e nos via tão
pequenos tão raros e queridos
tão adolescentemente
amantes que nos amava por si
há coisas assim
tão belas
que nos fazem esquecer a cólera
divina
que sempre se arrasta sobre mim


Saturday, June 17, 2017

canibais

falo de quem se senta à mesa e festeja
comendo a carne da sua carne
lambendo os ossos de quem os pariu
chupando tripas dos que nos chuparam
a língua
amaram os corpos
e delicadamente tocaram
o cerne do ser do seu irmão
falo de quem aos seus ama
para além da morte
e que vinda esta se faz vida
ingerindo
deglutindo
saboreando
sangue, braços, pernas
coração e vísceras
falo de um amor
que se expande
de forma nunca vista

Thursday, June 15, 2017

refrão

vou dormir, enquanto durmo
não escuto o silêncio
a que me votaste

queria chorar toda a noite, como dantes

queria chorar toda a noite, como dantes
deitar-me soluçando e não dormir
de olhos molhados e peito arquejando
a penas
ouvir o eco do fio das lágrimas
sobre as cobertas frias
húmidas de tanta noite em claro
queria chorar até morrer
como sempre chorava
esperando que chegasses

entre os vossos quartos

se pudesse deitava-me entre ti e ele
deixava-me ser nada e tudo
para que me amásseis assim
de carícias tais que eu fosse
o vosso robe o vosso pacto
unguento de leite e bolachas
maria
se pudesse deixava-me de
conchinha
entrelaçada em vossas mãos
estendidas dos quartos na esquina
deitava-me de
algas marinhas meus cabelos negros
passagem de amor entre um ninho
e outro
eu nunca gente eu nunca nada mais
que amante amada muda
esvoaçante entre os umbrais
e todas as manhãs pardal seria
até que de noite musgo de novo
voltaria
e entre os vossos quartos
de novo
amor vos faria

as mulheres são de amar para sempre

no silêncio da manhã de sol
onde o degrau da porta da entrada me aguarda
sento-me com o meu café
e apercebo-me escutando
a voz grave de minha bisavó
que ainda ecoa por todos os quartos
na sala e na cozinha
que apenas as mulheres são de amar
para sempre
que os homens
são de amar
de repente
e que de repente se vão
mas que as mulheres se amam
lentas fundas impávidas e até ao fim dos tempos
tão somente haja coração

penso que morreste

penso que morreste e que se calaram
as vozes porque não há de onde se ouvir
espectro fantasma assombração
vejo-te caído pelo chão já noite escura
soçobrados braços de quem te socorra
agora que a mim empurraste vida afora
para os braços de outro qualquer
fula furiosa enfurecida
fica-se-me o grito mudo
atravessado na garganta e decido
que quero comunicar-me com Deus
perguntar-lhe se é verdade, se morreste
e que assim sendo solicito
formulário preencho, cumpro todos
os requisitos
e que me faça a delicadeza
de me transferir a chamada às profundezas:
filho duma puta como pudeste tu
deixar-me
aqui?

Tuesday, June 13, 2017

quiero bañar

quiero bañar
mi rostro
en tus aguas
seguir tu lluvia como si yo estuviera 
muerto 
de tantos inviernos corridos
transcurridos
en mi boca
y tu fueras gota y mar
sobre mi 

the morning was like sunshine and cream and popsicles

the morning was like sunshine and cream and popsicles
together
with wild screaming
because you know me in places i do not
you make me want to do things
all these things i do not know how or what
and then 
making love to me again
before leaving 
was like you weren't leaving
and i felt wanted
and i needed to feel wanted
by you
the morning was my full day
how was your morning?
full was my morning
of you
i wanted to need you
i wanted you
I didn't leave when I left
again we made love
and then
these things that happen that i don't know
I do things that I think you want
because I discover places i didn't know existed
screaming wildly muted
together
the morning was like sunshine and cream and popsicles

the wake

i'm sorry i'm not the saint i wanted to be
for you
i'm sorry i'm not brighter lighter
and filled with lilies
and book pages with hearts on the side
i'm sorry i can't be that nice
even though i would gladly
die for you to understand
that it is only because of that
that i am
perfect
for
you
but because i am kinder
and darker and my love is made of flesh
muscle and blood i will let us go
i will arrange for our funeral
       bring crying old women
          to mourn us right long and loud
but remember
                                  remember
                   remember
once the wake ends
and the bodies are buried
Easter is no more


nem um silvo, nem um ai,

saudade do sonho que em ti não acorda
o sono é ido e o silêncio impende
e nesta vida não tenho como dormir jamais
nem um silvo, nem um ai,
o silêncio oferta de tua língua esperta
e o rugir do meu querer que desespera
surdo nos lábios desbeijados da aurora
crua e fria a cada dia
nem um silvo, nem um ai,
e assim me espanto no silêncio
sem quebranto onde nada mais faço
senão lançar-me ao furor do mar e
esperar, resignada, que
quando de lá me não pesquem
em alba madrugada
tu venhas
e haja um silvo, haja um ai
que por entre as ondas do mar
não se ouvirá jamais

grávida

imagina-nos as três, tão iguais que
seríamos como gotas de água
onde se lavam pecados se lambem feridas
e se segue de cabeça erguida
porque essa coisa de ser mãe de duas meninas
tão profundamente iguais que mais pareceria alquimia
é uma coisa tão transbordantemente gloriosa
que me sinto prenha de ti
apenas vendo-te

Monday, June 12, 2017

perdendo-me

cansei-me de te escrever cansei-me de te dizer
por entrelinhas nas linhas na boca na carne
               que mais ninguém conhece como tu
Cansei-Me estou farta Doente
deste interregno instante
em que me perdeste
muito antes de eu ter partido
em que me perdeste
muito antes de eu ter ido
quando por ti Sorvia
a fome e a sede
e Solidão tão abjeta que nem a mim mesma
me queria por dama de companhia
Cansei-Me
hoje
de tanto cansaço que
vomito
golfadas
do nada
em que não me levas comida à boca

Sunday, June 11, 2017

só ainda, nada mais que ainda

que graça desgraçada seria se tu
de todos os que não me podem ter
e que ao redor de mim se passeiam
como se eu fosse sua
que graça desgraçada seria se tu
me perdesses
só porque um dia
eu ainda não tinha chegado
ainda

que bom seria abrir a janela

que bom seria abrir a janela e deixar-te
entrar
em
mim
mas
sabes (?)
dentro das portadas
, que deixo ainda assim
abertas
de par
em par,
já deslizaste em segredo
tão de mansinho tão de permeio
que o que me aflige
de longe
quase como um esquecido trejeito
é que janela afora
tua vida rola
e meu peito é escasso quase osso
quase oco trecho de outro roteiro

o que já houvera de ter sido

vou casar-me de branco e a luz há de
chegar aos recantos onde nunca me vi
iluminada e doce como sempre houvera
de ter sido, tão cheia do dia que há de
vir que transfigurada estarei água
límpida em teus braços meus
e quando te espelhares
em meus mil reflexos de ser
sem rosto
me encostarás contra o peito
e o amanhã não será dia
mas apenas amor
puro
espuma espanto e tudo
o que já houvera de ter sido

Saturday, June 10, 2017

de onde?

pergunto-me de onde me vens com essa luz
que me atravessa e me faz rósea glória
de sol e beijos
de onde saíste tu com essa força que
me faz borboleta gaivota e pena
pescador passarinheiro séria
força bruta de boca fruta e
outras coisas tais que talvez
não fosse capaz
não houvesse esse querer
em ti
que tão simplesmente se faz presente
e eu já indo como oferenda rubra
sem laços que desatar precises
pois já me ofereço nua
como se não houvesse traje
que depois de gala investidura
baile e qualquer coisa dura
que em mim se fará sonho
passe em claro a noite escura
não venha afinal ser palha
fogalha incêndio que a distância não cura

a casa

voltar para casa
encontrar a casa
ficar na casa
fugir da casa
não ter casa
não ser casa
voltar para casa
e não encontrar
a casa
fugir do ser
esquecer o ter
e de novo correr
só para ter o que fazer
enquanto não morrer

Friday, June 9, 2017

o amor primordial

amar a carne da minha carne
beijar a minha boca na tua boca
beber-te a saliva como quem
simplesmente engole
o que desde sempre era
nosso
tocar-te as mãos como quem
dedos ancestrais anela
remexendo a areia
rindo e gelada a água
em que fervemos o sangue
do mesmo lugar nascido
atávico o ponto onde
te reconheço lindo
E assim sei que sugar-te seria
remédio divino destinado
a trazer ao mesmo lugar
o relógio de cuco e
nosso
primevo folguedo de meninos

infindo

às vezes penso que me abandonaste de fato
que aqui me deixaste às mãos de todos os
que me querem
que me precisam
que me desejam
mais do que o
ar
e o
próximo dia
penso que esqueceste
que era para ti que me vestia
me despia passeava cozinhava
lia e lentamente morria
na esperança que voltasses
antes que o fim chegasse
que pena
rezo a Deus que te alumie
aos Orixás que te abram
os caminhos
ao tempo
que seja curto
e que o teu nome seja ainda o do amor
infindo

talvez por misericórdia

talvez por misericórdia, talvez por discórdia
entre minha voz de menina e minha força
ainda não inteiramente perdida
revolvo o lixo
limpo incansavelmente
como se a tua vida dependesse dessa
tarefa gigantesca as minhas mãos em escaras
as minhas costas laceradas e tu para mim
sorrindo
como se o mundo não fosse este mísero
inferno sofrido até ao último de todos os
círculos
Que fazer de tanta ausência
que não há já peso que te traga ao chão?
Voas incontinentemente leve e graciosa
e eu rato de esgoto
ainda
roendo os restos que deixaste esquecida
por entre as dobras dos lençóis e
a minha voz prometendo querida
que regressar
regressaria
Vinte anos volvidos
puta velha mentirosa aflita
cansada inútil sombra de inúmeras
vozes já jazidas
acabo-me na imundície da tua casa
esperando que por pena contigo me leves
e que em dueto
voemos
por sobre a estrumeira desta porca vida

Wednesday, June 7, 2017

o inferno refeito leito

o inferno refeito leito onde nem descansas
nem deixas que se pouse teu raro preito
que balança e ousa fazer-se
cadeira manca comida turva facas a eito
por entre os lençóis e teus seios
e eu abrindo o chão por entre
terras pratos e podres vestes
sabendo que não sou voz celeste
sabendo que não trago preste
nada mais que a ilusão dos dias que virão
em que nem limpezas nem podridão
te façam carne branda esperança de salvação
pois apenas às cinzas que se alumiam
de plásticas flores e solenes dores
ofereces sincera tua plena devoção
Enquanto isso limpo teu leito
refeito inferno de minha velha gratidão

where are you?

amidst hell i found you
your white face lost in-between the sheets
hiding the tears from seeing me leave
stolen from your open arms
just to be swept across time
and again land amidst your tears
dropping from my eyes instead
yours so dried and lost
i wonder if you are still there

Sunday, June 4, 2017

águas lusas

sem ter mais como chegar a ti
revolvo a terra empurro solo
mergulho no rouco do ventre escuro
e inspiro o
fundo
lago das águas lusas
que permeiam o recôncavo do meu ser
desde há milénios
troco o ar por essa água límpida
que nos faria peixes da aurora
e já escamas já guelras
desponto uma vez mais
ao de cima
expirando sobre o seco rio
cujo lenho abri
a água onde nadarei
de volta
para ti

Saturday, June 3, 2017

Odeio-te animal

Odeio-te animal tenho-te uma raiva que era capaz
de te desfazer à dentada
não te ponhas a pau não que vais ver
se te apanho à esquina o quanto
hás de chorar e soluçar enquanto te arranco
os olhos com pauzinhos de comida chinesa
chora para ai pedaço de merda
que quem me comeu e cuspiu
como se eu não fosse a Virgem Santa
que sou
não merece mais que levar um par de cornos
pelo cu dentro
Lindo poema este!

Canso-me de tanto me refazer em segunda voz

Canso-me de tanto me refazer em segunda voz
crio-me na minha mesma criação lírica
esperando que a ópera se desenrole
à laia de filme de lotação esgotada
um final feliz à força de forçar a voz ao sim.
Mas retorna a memória de que o sofrimento é
sina minha e obrigo-me às linhas
escritas com lágrimas frias.
Ponto a ponto
vírgula a vírgula
aceito a nostalgia das camélias
para onde me empurras muito embora fuja ainda
de todos os outros braços que para mim se estendem
de todos os ouvidos que de longe me chamam
enquanto contemplo teu amor eterno que definha
frente à campa onde me enterras, viva.
Escrevo que irei para te agradar
deixando para trás a minha voz sumida
perdido já o dó de peito
em que ainda dizia que fazias de mim a mulher mais linda
Cansada, tento, apesar do tempo,
de novo, e ainda, a segunda voz,
onde quem sabe não se sinta tão triste
esta nossa dramaturgia.

Thursday, June 1, 2017

matei meu pai lentamente

matei meu pai lentamente
atado ao tronco de uma árvore
lentamente o depelava
e dia após dia colocava
larva após larva em suas feridas
pungentes
por mim lavradas a gosto
minha mãe deixei
que se afogasse
em poços de lama e serpentes
enquanto por mim clamava
e eu me ensurdecia qual estátua
de sal
assim foi
ou imagino que fosse
porque outra razão me castigarias agora?

confesso, no silêncio do desamor

confesso, no silêncio do desamor
nada me interessa
nem a cor da cidade nem o sabor da maresia
amputada faltam-me desejos de porto
de ser barco ou flor da metrópole
que me viu nascer mas que nem por mim
se comove
ou se agita
confesso, não sou bote de andar à deriva
nem no Tejo que me aninha
quanto mais no teu peito
que só sinto meu se se abala inteiro
não sei meu amor que te diga
Lisboa é linda
mas no silêncio do desamor
falta-lhe vida