Tuesday, May 31, 2016

a praia II

E não me digas que amar-me amar-me-ias
sem pernas e sem braços
um coto jogado na beira da areia
entre o ir e o vir e o balanço infindo
das ondas que quebram
o corpo e o dia a noite e a alma
o grito e o choro e o meu querer
tempestuoso
imenso e monstruoso
como um coto que goza
a verdade da amada ida linda e loura
e longa e sinuosa
e que te olhava e te queria
e te desejava tão crua e tão pura
que até o sol se contorcia
a sombra torcida no gozo infindo
da onda
que ia e que vinha
e eu sem nada nem nada nem nada a não ser
a memória
distorcida
do quanto
eu
linda
e
loura
te amava
e te queria.
um coto na beira da areia
de quem nem um peixe se abeiraria
Não me digas de que amor me amarias.



a praia

Primeiro, devagarinho e como quem não quer nada
cortei-me os braços.
Devagarinho cortava e a minha mão
corria
como se a faca não fosse minha
e nem o braço me gritasse
para que parasse a agonia.
Meti depois a faca entre os dentes
e o outro braço assim se perdia.
Sem dó nem piedade
e nem corpo que não fosse a ausência
do que me restaria
entre o espanto a dor e os
dois
braços
no
chão
como se foram o dia,
dobrei-me sobre mim,
E já sem pejo,
rápida e certeira cortei-me as pernas
e atirei-me pela praia vazia.

Wednesday, May 25, 2016

nada

não me lembro de quase nada, a vida atirada por ai
como se contasse
como se me contasses. Às vezes contavas-me da vida
da minha
da nossa
e eu sorria de mansinho como se me lembrasse mas esquecia
esquecia toda a hora a todo o tempo a toda a vida que te dei
mas sabias
sempre soubeste
que me esqueceria de tudo.
Fica o fantasma do cheiro no colchão
teus passos nos jardins imensos por onde caminhaste
onde não ias, nem sabias, nem dizias
o rosto
tão longe que quase perdias teus passos entre o olhar
e a chegada.
E entre o ir e o ficar, eu. Perdida já.
Mas enquanto soube e não soube
ah, amor, como a felicidade me comia os olhos!
E só isso me resta de mim e de ti. A tua voz ao longe
repetindo
lenta
you won't remember anything.