Sunday, May 20, 2012

in-between

i live in-between the lines of en-glish.
try to read the words that breed from the concoction of portuguese
          and this strange in-between anglo-saxon-french world of léttres.
          Letters.
Letras. Correspondência. the correspondence. La correspondance.
A concordância da palavra e da fala
                                                         que não está lá. inglês.
in-between the letters lives the sound of this language
in which i live like a parasite.
creating my own sounds.
i'm no longer trying to write in english.
i'm writing in-between.

Thursday, May 17, 2012

we probably delive life as time unfolds

we probably   delive
                           life as time unfolds
i actually would like to consider
we die the moment
we are unborn
in fact
i have the feeling
                     we live time
                        while time
                                  ties life in a bunch of
                                                           ashes.

Saturday, May 12, 2012

Para o Carlos Alberto e para o Bernardo Sassetti

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Porque o mar é cheio e louco
Como os braços de piano
Com que me abraças
Na hora exata do flash
Porque o mar são teus braços
Se erguendo acima do penedo
E mergulhando fundo
Na espuma irada
Que por ti me beija enfim
Porque o momento do espanto
Era teu corpo boiando
Num bolero de Ravel
E meus olhos exangues
De tantas lágrimas a preto e branco
Plenas de piano e teclas
Teclas teclas teclas tendendo à perfeição
Da morte
Fácil
Porque difícil mesmo é nascer
Do fundo do mar
E renascer na música de tuas palavras
Atentas
Intent
Tento
Nadando em direção a ti
Que te espantas com o marulhar do tempo
Em que repouso
Exata
Como se assim fora sempre
Viva e plena em tuas mãos dextras
Teus dedos longos
Teu rosto salgado deixado ao Deus dará
E tua música
Sempre
Como um compasso
Quaternário
Porque três dimensões
São coisas de gente
E tu fizeste-te imenso Poseidon
Manso
Piano
Presente
Sempre

Friday, May 4, 2012

Gandara

"Gandara (Old Persian Gandâra): name of a satrapy of the ancient Achaemenid Empire, roughly equivalent to the valley of the river Cophen (modern Kabul). The Greeks called the western part this region Parapamisos, which may be derived from the old Old Persian name of the Hindu Kush mountain range, Upairisaena (mentioned in the Avesta, Yasna 10). Culturally, Gandara belonged to the Indian, not to the Persian world." http://www.livius.org/ga-gh/gandara/gandara.html

Leia-se pois um sonho que tive, faz muitos, muitos anos, uns vinte anos talvez...um sonho em que as palavras eram mais claras que água e onde tudo acontecia num lugar preciso que nunca visitei. Esse lugar era Kabul. Kabul era o nome do Doberman que me acompanhava como o espaço familiar. Levei muito tempo para entender de onde veio o nome, e de onde veio e o sonho, mais real que o sono. Leia-se por favor:

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Dos rios que vão de Kabul...

Depois de habituarmos os olhos à luz podia-se ver a cómoda, a cama e as mesinhas-de-cabeceira. Aos poucos discernia-se a figura de um homem.O vulto masculino de um homem alto, magro, o cabelo escuro, cortado curto. Na escuridão do quarto não era possível discernir-lhe as feições. Por mim, não precisava ver, desenhá-lo-ía, se necessário fosse, de olhos fechados. Os contornos ossudos do rosto, os lábios grossos, os olhos negros, a tez escura, emaciada agora... . De vez em quando preciso de me encostar à  velha e gorda cómoda  que me ampara como uma avó. Mas agora devo debruçar-me sobre a cama e ser a amantíssima enfermeira e a amiga cega e desmemoriada que se necessita sem delongas. Assim sou. Da cama de espaldar alto e negro mal se recorta a sua figura. A do bem-amado, um homem por baixo dos lençóis suados e sujos. Manchados de sangue. Destapei-o para lhe  mudar as ligaduras. Ele falava sem parar, murmurando frases  que só para mim podiam fazer algum sentido. Conhecia-o tão bem que nem precisava de ouvir o que dizia. Sabia que falava da mulher e da filha pelas imagens que se atravessavam no seu olhar. Sabia que falava delas, desiludido, magoado, mal podendo acreditar que só eu estava ali.
            Desisti de lhe mudar as ligaduras. Pus lençóis limpos na cama numa tentativa absurda de que o branco daqueles lençóis lhe inundasse a memória. Ele chorava. Tinha acreditado nelas até ao fim, e eu nunca tinha tido a força que era precisa para que ele pudesse ter encarado a realidade sem medo. Agora jazia ali, os restos de um homem, sem nada. Mudar-lhe as ligaduras para ver a desgraça que sentia?! O espectáculo era-me insuportável, o que é que adiantaria mudar as ligaduras? Arranjei forças para fingir que lhe ralhava; que se calasse, a chorar para quê, não havia nada a fazer, a emendar. A lamentar, tudo. Lamentavamos a guerra por acabar, as ruas em ruínas, as mulheres e as filhas que não podiam resistir ao medo que se entranchava pelas janelas entaipadas e pelos buracos das balas nos tijolos a descoberto e corriam como loucas pela calada da noite em direcção à fronteira.
Fechei a porta a saí para a rua. Fui ter com o outro. Um homem inteiro e um corpo são que me fizesse esquecer a violência da gaze vermelha e de um lugar vazio. Atravessei a escuridão ignorando as vozes sussurradas dos soldados e entrei pelo prédio dentro já tocando a campainha da porta, réstias de música e normalidade. Breve, imperceptivelmente, como se não quisesse ser ouvida. Era tarde demais.
- Tenho os meus pais cá em casa.
- Que não nos ouçam.
Abraçei-o rindo, agarrei-o com cócegas e murmúrios até o empurrar para cima do colchão. Fechei a porta e deixei-me cair por cima do seu corpo.
            Sei que fizemos amor. Mas apenas me resta a sabedoria do acto já que esqueci tudo. O como do prazer. Sei tambem que nunca quereria falar dele para além de um contorno obsessivo que se esbate no meio dos acontecimentos. A realidade que me fez cortes na pele como fazem as pontas das navalhas afiadas era outra. Imprimida na memória como se imprimiria na casca de uma árvore as letras do momento desejado. Saí de casa dele ainda de noite e andei pelas ruas da cidade como se não quisesse ir para lugar nenhum. Acabei sentada nas escadas do que restava de um shopping qualquer a reparar que amanhecia. Levantei-me para continuar a andar. Passei a única casa parada no tempo da construção onde, na varanda,  todos riam, cantavam e dançavam por entre o cheiro do fumo e as cinzas da erva queimada. De lá de cima um gorducho imune à fome de comida convidava-me a entrar.
-Vem dançar conosco, miúda boa!
Sorri-lhe e continuei a andar. Aos poucos, o calor ia-se tornando sufocante e o ar viscoso trazia uma  brisa que  colava o suor ao rosto.
Não me recordo de mais nada até chegar à praia. Sem que eu possa descrever como, chegamos os três, amassados dentro do que restava de um Mini. Eu, o outro e o Kabul. Kabul é o meu cão. Insisto, Kabul é o meu cão. Um doberman preto, alto e esguio com quem me entendo para lá das palavras. É meu, o meu cão, e tem nome, e esteve sempre, sempre comigo, e com ele. Mesmo no quarto, no meio das ligaduras e das lágrimas, das fotos e do pó escuro que se escapa pelas frinchas do que seriam janelas. Eu, ele e o Kabul, de quem gostava tanto.
            Na praia caminhamos, eu e o outro, lado a lado, como se um corpo são pudesse substituir tudo. O Kabul corre à nossa frente, depressa demais. A velocidade com que se move ultrapassa a velocidade do meu olhar e subitamente já não o vejo. Já não sei sequer se ainda damos as mãos. Só sei que está muito calor, que o meu cabelo é uma pasta contra o rosto e que o vento é uma espécie de saliva. Disse-lhe qualquer coisa a respeito de uma carta que lhe tinha escrito há cerca de um ano e onde me lembrava de lhe ter descrito esse calor  húmido e pegajoso que agora se nos agarrava aos cabelos e à roupa. Mais tarde, disse-me que já lá tinha estado, muito antes da minha carta, e que também ele já sabia daquele calor. Suávamos os dois.
            Chegou de  repente, o céu escuro, negro de nuvens espessas, a pouca luz que ainda se podia ver era inacreditavelmente cor-de-laranja. Parca, translúcida, diáfana e cor-de-laranja, indiferente à negrura inapelável das nuvens que se estendiam para além do céu e das aguas e de um mundo que perdi há muito. Comecei a gritar, gritava por Kabul, que não voltava, não vinha. O céu feito de noite levantava um vento de facas. E o vento que se levantava comia a carne. Corremos. Ele correu tanto que desapareceu da minha vista. Sei que corria comigo até à altura em que parei para, de novo, gritar por Kabul.
Kabul, parado em frente  ao rio ladrava, ladrava sem parar e sem som face ao rugido das ondas que apagava tudo menos o silvo agudo do vento (ou das balas?). Quando finalmente me consegui aproximar do Kabul, uma sombra, de quem não sei que fosse, puxou pela minha mão com uma violência sobrehumana de quem corria comigo e para lá de mim. Só para depois continuar a correr. Sem mim.
A tempestade foi brutal, embora não a possa reviver já que corri e não vi. Não  presenciei. Mas sei.
Voltei à beira do rio para ajudar a puxar os milhares de corpos que se amontoavam pela areia e pelas rochas. Mortos (pelas espingardas) pelas águas e pelo vento. Ou sufocados pelo calor e pela areia. A beira do rio é um monte de cadáveres.
Passaste por mim porque te senti. Também puxavas os mortos para cima. Mas não eras tu quem procuravamos. Eu e o Kabul vimo-lo ao mesmo tempo. O bem-amado. Era melhor assim, convencia-me, tinha sofrido menos. Pus-me de cócoras na areia molhada e enterrei as mãos por baixo dos braços dele para o poder puxar para o meu colo. Fiz força e enlacei-o de volta para mim. A cabeça dele agora repousando nos meus joelhos. Afastei-lhe os cabelos dos olhos e só sabia como  ele era lindo enquanto as lágrimas me turvavam o olhar. Kabul, sereno, esperava ao nosso lado.

Talvez há três, quatro anos atrás, fui a Washington DC renovar meu passaporte...reparem na ironia louca, absurda, prenhe de sentido insane...pois fui a Washington e fiquei em casa de um amigo, que por sua vez estava em casa de outro amigo, todos académicos remediados relying on the kindness of one another. Chego à tal casa, e cumprimento o dono da casa, um homem de tez morena, de uma expressão profundamente triste, lindo como todos os morenos tristes, mais longílineo do que alto...falava um inglês e um português com sotaque..."de onde é?" perguntei. "Kabul" respondeu. Meus pés pregados ao chão e minha boca rápida contando-lhe meu sonho de há tanto tempo atrás. E ele, de moreno foi ficando branco, pálido de espanto. "Isso é a história da guerra de Kabul, da mesma guerra de onde venho exilado..." Perturbados ambos separamo-nos para apenas trocarmos uma despedida rapida, pouco depois, pois ele estava de saída e eu cansada precisava dormir. Lembro que abracei minha filha na cama fria, o quarto quase gélido no final do Inverno em Washington. Abracei a menina e dormi, a minha cabeça perdida em Kabul. Aos poucos surgiam imagens na minha mente da guerra em Kabul, imagens que teriam vindo de algum lugar...um qualquer algures, nenhures. 

Pois hoje, tempos idos e vindos, lia Paulo Leminski, que a propósito de Satyricon menciona Menipo de Gandara. Curiosa, li meu nome numa cidade meio síria, meio persa, meu nome Gandara, de lá. Não de Espanha como sempre pensei que fosse, mas de lá...e fui procurar onde era, onde teria sido esse lá. Encontrei: Kabul. Se não sentiram um arrepio na espinha, não entenderam nada. 

(Sayonara querida...o que escreveria você dessa memória sem tempo, nem espaço que me assombrou um sonho tão (ir)real? Sei que minha amiga terá uma explicação para esse pombo, esse vestido cor-de-rosa... )


Uma alma exilada

Uma alma exilada, não há pior dor do que uma alma exilada do seu idioma natal.

Obrigada Paulo Leminski.