Saturday, December 28, 2013

começa aquela agonia de garganta apertada

começa aquela agonia de garganta apertada
e as paredes a céu aberto como gaiolas
de pássaros cegos
não sei se sangro ainda, tudo o mais corre seco
pelas mesmas auto-estradas, as mesmas lojas,
a mesma gente educadamente malcriada
e quero correr nua até ao Grand Canyon
enquanto o meu corpo ainda não causa nojo
na geral
não sei se vos diga que dia após dia fedo
um cadáver mais ou menos descomposto
o meu, nesta rotina em que não sei se me mato
se me desmato porque há anos a esta parte que não reconheço
as carnes, os traços, os desejos de ser vida sobrevida mais do que vivida
adiantada até
mas não há como mexer-me daqui, as pernas enraizadas nos cântaros de amores perfeitos
com que esta gente engana meio mundo e o outro
não saibam da américa do norte, peço-vos
é uma peçonha a amérdica do norte, digo
enquanto o cuspo me sobe pela garganta
aberta onde o ar não entra
e desnuda bóio em minha saliva, resquícios de mim.
começa aquela agonia de garganta apertada...
começa aquela agonia de garganta apertada...
...
...
alguma coisa começa ainda.
Que lindo poema de natal!

Sunday, December 22, 2013

entre pernas e mãos

vejo-me meio cega já através das brasas dormentes com que me pelas inteira
na fogueira.
das tuas pernas ancoradas aos troncos que rolam soltos pela casa
fiz a fogueira
e de cada palavra que não dizia uma brasa enraivecida
estilhaços de amantes que nem amar amariam
ardentes fogos
serenas brasas com que me escarninham o rosto vermelho inchado disforme
que não verás
pois que teus olhos não moram no meu quintal
apenas tuas pernas,
mas queimei-as para meu sossego
e nesse sossego me pelei ainda
outro dia virá
em que talvez te possa ver vindo por entre as vigas que abateste
e que eu de novo ergui na força das minhas mãos até aos céus oferecer minha abobada
angelical
enredada em hera
e em folhas secas
vejo a luz que não me vê pois cega perdi o direito a chorar pela beleza
do teu quadro que apenas queria ver
e nele me enrolo imensa tela de sagradas moradas e góticas fantasias
nela na tela
me entaipo inteira
para que agora na mais negra escuridão te possa finalmente descrever
a beleza de uma abobada celeste onde sem anjos os pássaros trouxeram ramos
e a luz vive em plena liberdade crescendo do céu aos céus onde voarei
asas negras e rosto de carvão
queimada a possibilidade de te não dizer nada
voarei para me esparramar no teu chão
e falar-te do belo
sempre. cega ou não. entre as tuas mãos.

Sunday, December 15, 2013

at all

it will all be over very soon, I know,
and it will have meant nothing
for nothing stands
in the meanwhile i know we both
see the same
see the insane
beginning of every end
and we know if it were not for a glitch of the mind
we would have never
we would have never known
that somehow we know that in the same second
we know the same thing
there is nothing
one knows
nothing
no
thing
at
all.