Monday, December 19, 2016

de moto próprio

do fundo do Rio estende-se o breu que grita como
se amanhã fosse ontem e nem os peixes
fossem cordames navalhas e homens do fim
do mundo
grito-me as correntes do oceano absurdo
onde saltava nas ondinhas
fingindo que era menina
quando me afogava lenta e quieta
sentada na areia enrodilhados meus cabelos
na espuma das sereias que nunca vi
mas cujo canto permanece intacto
no marulhar antigo vozes de gente
que nunca soube da aflição de respirar
mas apenas da morte
como se esse fosse o derradeiro horror
e não a paz
que invento
à falta do que me aquietar
por entre a neve e o silêncio das paredes
onde me empalo
de moto próprio.

Thursday, December 1, 2016

the dead scene

let's get the dead scene right
now
you finally finish me off
in grandeur
sending me onto the other world
with flowers and tears
sobs and attempts at suicide
since you have finally succeeded.
surprise me,
go beyond yourself
raise from the ashes of your sorrow
and cry.
you cry desperately
remembering you shall never cry for me again
like that.
since we only die once
you must get that
perfectly.
Now.

Sunday, November 27, 2016

Sombras

A minha alma clara, emagrecida da dieta dos dias
enreda-se no fio invisível que me liga aos animais
e busca a luz por entre o breu dos meus sussurrantes móveis
mobiliário de família que se escusou à monarquia
elo da única vida que lembro por entre réstias de sol,
arrastões de sombra, e meus aguados papagaios paraenses
que há muito perderam a fala e o siso.
Viro-me para ti, sombra de Cupido, manjar dos deuses
suplicantes e esquecidos
que se me ofereces à esquina, à guisa de esmola
esmaecida a tez na persistente negação do peito
apesar das mãos trementes
suspeita obscura da carne
livre do riso
e ainda assim cheia
de plebeias ideias
rotundas e infindáveis loucuras
porque suspiro, baixinho
por entre o fio de luz
que me liga aos animais.
Alma de palavra
a ti me entrego
em bandeja alta
fortuito fausto de teus sonetos
fodidos.

Wednesday, November 23, 2016

my fatherland

I shall tell you about my father meu pai meu medo
dir-me-ás quem és                   you shall tell me who is
                                                 thou
de mim não perguntas nada           no questions asked
pois apenas a mim queres            my nakedness is the want
nua
through the soft lens of the Summer
gone

I shall tell you about my father

but for the night all I see is the Virgin Mary holding the baby
around your neck though my sister's necklace it was
and on fire                                    adorning your neck

before the night is over
all I see is your neck

around my hands

on fire

and the Virgin Mary holding the baby

in America

... slowly the whiteness takes over
erasing all trace of us
our bodies and laughter
and tears
submerged under the sheets
of white that eventually
will cover all the tiny secrets
made of screws and nails
lost
in the drawers of the houses
... slowly the whiteness takes over.

Tuesday, November 22, 2016

i am going to go dancing, she said, in perfect English

i am going to go dancing
in the garage
to music
that makes me smile
then i'll take a sip of wine
wear my white lacey nightgown
and sweat it all out.
or.
if i am lucky,
i may get someone who is actually not coward material
to invite me dancing (there's no superflow of those, mark me)
barefoot
with my hair up
and i will sweat until the whole thing falls down
in the meanwhile i'll dance in the garage
smile all the time
smoke the smoke of clouds
and eventually levitate.
i am pretty certain i can fly.
Do you want to see?
That's what she said,
in perfect English.

Monday, November 21, 2016

meu Brasil

Não é que a América não me doa, medóisim
mas o Brasil me magoa, me fere de morte
me atinge no fundo do peito e ainda reverbera
berra, grita, atira direto do gatilho contra
contra contra como me estilhaça a alma
e a esperança e a certeza de que haveria céu
em algum lugar
o meu Brasil que não vem de Caminha, nem de Cabral
nem de Freyre e de menos ainda, mais ainda
meu Brasil se fazia de amor de pindorama
de pau e de pedra e de sonhar o meu lugar
um dia
em meio a Elis que me deixou chorando
e Adriana que me ensinou a cantar
vi D. Moema partir e o comandante voar
e eu
menina de mais para saber falar
cantava baixinho o que nem poderia explicar
Meu Brasil
meu Brasil de Robson que é para sempre
de Sayonara que é para ficar
de Daniel para respirar
de Rosemeire que é meio eu, meio outra
de Rosiana que é de Belém onde me tem
de suas irmãs serenas, sua mãe amada e
meu Padre do rio Mojú
onde nem pude nadar
meu Brasil
do meu amor que sempre foi de dar
eu que já não tenho pátria e cuja mátria
arrancaram do lugar
deixo aqui meu peito exposto
meu mamilo sangrando
meu coração sussurrando
meu Brasil meu Brasil meu Brasil
brasileiro
se ao menos pudesse te aninhar em meu seio...
vem Jorge, vamos tocar
nosso Brasil ainda vai chegar


Sunday, November 20, 2016

Entrañablemente amable

Amavelmente estranho
                        a tua escrita
chegava regularmente
                        e o meu sorriso
insólito                enchia os minúsculos
segundos                em que te lia
            primeiramente
apenas de soslaio       te lia
Estranhamente amável
                        E assim correram os anos
entranhadamente amável já
sem que pudesse discorrer         leitora que sou
             agudissimamente cega             estava
                        e não                 esperava
que tal amabilidade
se atracasse assim
às entranhas      nas nossas mínimas
                                                                           algaraviadas
Hoje, sento-me na beiradinha
               da      linha
             e balanço
             enquanto tu
Amavelmente entranhado
             nos sustentas
  entre a ausência da letra
      e o intragável corpo do querer
          imperceptivelmente                  amável.


Saturday, November 19, 2016

vou fazer cinema

vou fazer cinema
da história de um telhado que tinha ruído
e de dois homens que se tinham atracado à porrada...
da precisão das mãos no meu corpo 
e da certeza da minha respiração na noite 

mas a banalidade do encontro dos corpos na escada superou-se a si mesma 
(apesar do horror da dor ) e a minha boca escancarada no grito
abafado pela água quente e o excesso do espaço dos homens 

nojento brutal assustador 

apenas no horror da sua presença. 

E tu. Entre a tristeza de me veres e seres poeta. 
Entre deixares-me fugir pelos recantos do meu corpo atroz 
e ajeitares-me junto ao peito. 

A água quente, 
os resquícios de uma árvore nua 
que não se sabe como não flutua  
Assim eu.

Guardo tudo isso dentro da cinematografia instável da memória.
quase que te ofereço um beijo
(mas nunca precisaste de mim)
deixo que os meus lábios te toquem de leve.
vou fazer cinema.

Sunday, October 30, 2016

Inútil lembrança

Nāo me imagines, nāo sou para ti.

Nunca fui para ti

é que nāo sabes o que fazer com a inocência
guardada entre os meus lençóis, a pureza fechada
na minha boca
E o vento quente que me atira pelos ares
em antárticas horas

Não te chegues a mim, não me beijes por engano
Não me sonhes
nem creias
que sou como                        as outras
                   pobrezinhas comedoras de homens, gordas amélias,
mãezinhas mesquinhas maldosas renitentes tristes
almas
que choram o teu desamor
no andar de cima.
Eu sou uma velha
menina
difícil, difícil, difícil
de caracóis longos
Escuros, densos, Emaranhados
Enrolados caracóis nos meus dedos Esquálidos
gelados, feitos pingentes das lágrimas que choro
Quando canto silenciosa acordes de Stravisnky
Enquanto o samba pulsa
da garganta
para o chão
Não te chegues.
Não te mintas 
só para não me quereres.
Só não me queiras. E

não é por nada; 
é só 
que não sou para ti.

Saturday, July 16, 2016

Amar Amante

Meu nome é Janaina Amarante, Mar de Pai e Amante de Mãe
meu corpo se estende na beira da praia areia molhada de seixos
e rochas, peitos e sexo, peixinho de abrir e de fechar,
sou tua amante sem ondas nem hora para ficar
sou teu céu espelhado nos cacos de vidro que vestem
as sereias de encantar
Meu amado se perdeu por entre os limos e redemoinhos
onde se alinha e desliza a água do mar
Eu perdida de amores transcorrida em dores me vesti de coral
e de cantar
Meu nome é Janaina Amarante e te amo para sempre
no fundo
do mar.

Friday, July 15, 2016

me beija

Queria escrever-te mas como sempre já não sou gente
sobrevivi à pena lacrimejando sentida
rosnando ferida
E muito embora te pese
a notícia que me iria
A verdade é que sem mim tu serias e estarias e nem o mundo se
ressentiria,
creio.
Imagino.
Incêndeio.

Se pudesse escrevia-te todo o dia só para escutar
teu coracção batendo e o pulsar da alegria
que dia meu amor que dia esse em que nem gente fomos
mas tanto e sempre e quem sabe sabe que para nunca mais
e quem sabe talvez talvez talvez
para amanhã
ou quem sabe hoje ainda
não chegues cantando
sem ser de saída. Te amo menino meu filho querido
meu pai meu amigo meu amo e nem meu nunca meu
nada meu
porque nem um beijo me mandas na aleivosia.
E acho que nem de menos seria um beijo no cordão que liga
meu pensar e tua pele macia.
Me beija me beija me beija de manso e ligeiro
como quem nem pensa
Me beija me beija me beija
pois beijo é coisa que requebra a alma e torneia a melodia.
Me beija pois que se acaba a vida.
A minha.


à porrada

enquanto a dor me puxava pelos cabelos e as minhas pernas corriam
para bem longe bem longe bem longe
de mim
arrepelei-me do que restava, enterrei as unhas nos recessos
dos pelos das bocas e dos ouvidos
das bocas
das bocas
da boca
e arranquei-me do fim
atropelada no ato.
O que será O que será O que será de mim sem
saber
onde
me
meti?
que será de mim? e no silêncio putrefato esbofeteio-me
sem dó.
Não preciso de música para me acabar à porrada.

Wednesday, July 6, 2016

Gorda

gorda de beijos esparramei-me sobre as flores
e perguntei-te
dos filhos
e dos dias
em que não me amavas e eu chupada
e magra aflita e preta
de tantas noites e desvãos.
Deitei-me inteira sobre o verde
do chão
e calei-me de beijos na boca cheia
vermelhas as maçãs do rosto.
Em que moldura me emolduraste assim
tão luzidiamente negra tão profusamente rotunda
apenas e exclusivamente cheia
por intermédio e fim desses beijos tantos
com que me desenhas?
Perguntei-te.
E na tua resposta nua abri meus lábios núbios
para que outra vez e outra
me engordasses de ti.

Tuesday, May 31, 2016

a praia II

E não me digas que amar-me amar-me-ias
sem pernas e sem braços
um coto jogado na beira da areia
entre o ir e o vir e o balanço infindo
das ondas que quebram
o corpo e o dia a noite e a alma
o grito e o choro e o meu querer
tempestuoso
imenso e monstruoso
como um coto que goza
a verdade da amada ida linda e loura
e longa e sinuosa
e que te olhava e te queria
e te desejava tão crua e tão pura
que até o sol se contorcia
a sombra torcida no gozo infindo
da onda
que ia e que vinha
e eu sem nada nem nada nem nada a não ser
a memória
distorcida
do quanto
eu
linda
e
loura
te amava
e te queria.
um coto na beira da areia
de quem nem um peixe se abeiraria
Não me digas de que amor me amarias.



a praia

Primeiro, devagarinho e como quem não quer nada
cortei-me os braços.
Devagarinho cortava e a minha mão
corria
como se a faca não fosse minha
e nem o braço me gritasse
para que parasse a agonia.
Meti depois a faca entre os dentes
e o outro braço assim se perdia.
Sem dó nem piedade
e nem corpo que não fosse a ausência
do que me restaria
entre o espanto a dor e os
dois
braços
no
chão
como se foram o dia,
dobrei-me sobre mim,
E já sem pejo,
rápida e certeira cortei-me as pernas
e atirei-me pela praia vazia.

Wednesday, May 25, 2016

nada

não me lembro de quase nada, a vida atirada por ai
como se contasse
como se me contasses. Às vezes contavas-me da vida
da minha
da nossa
e eu sorria de mansinho como se me lembrasse mas esquecia
esquecia toda a hora a todo o tempo a toda a vida que te dei
mas sabias
sempre soubeste
que me esqueceria de tudo.
Fica o fantasma do cheiro no colchão
teus passos nos jardins imensos por onde caminhaste
onde não ias, nem sabias, nem dizias
o rosto
tão longe que quase perdias teus passos entre o olhar
e a chegada.
E entre o ir e o ficar, eu. Perdida já.
Mas enquanto soube e não soube
ah, amor, como a felicidade me comia os olhos!
E só isso me resta de mim e de ti. A tua voz ao longe
repetindo
lenta
you won't remember anything.

Sunday, April 24, 2016

Quem dera

ver-te sem ter-te
e nem tão pouco tocar-te
e ainda menos valer-te.

Mesmo assim te quero
perdida e ardente
enquanto o tempo pinga
a migalha da morte
que sonho embebida
de renda e de corte.

Se ao menos um dia
me desses tão forte
o sol da Iberia
e o alento do Norte
choraria linda
o desencontro da sorte
onde minhas lágrimas caem
do medo que escorre do dia que foge e de mim
que me perco
sem teu braço que foge.

Thursday, March 31, 2016

a honra

negra como as teclas em que martelaste a
minha ideia apodrecida relego-me à funçāo de
puta adiada porque as putas certas
estāo sempre lá
como eu aqui
desprezando-te baixinho como quem cospe
por entre as dobras do guardanapo
por entre as lágrimas que
choro vísceras figado e vesícula
biliar
pingo-te
gota a gota por entre as folhas de papel
empapadas em sucos mal coados
dejeto a dejeto escoo-te
displicentemente por entre os dedos
sujos a mesa enodoada
as cartas espurcas e
quanto ao tempo
nem por perdido se deu
pois que nāo houve nunca e nem tāo pouco
se sonha que haja um dia
seja lá quando for
tāo somente dos meus olhos
já só escorram lágrimas exangues
e tu ainda te revires por entre os lençóis
imaculados da tua honra de merda.


Saturday, March 26, 2016

amnésia retrógrada

ando para trás, quero refazer os passos
mas meus pés se enrodilham com a minha boca
e me vejo atracada no peso da língua solta.
os dedos à toa, a inversāo do que devo ser
Pessoa me divido em três, ou mais
perdi a conta (conjuntamente
com o número dos comprimidos.)
De madrugada sou a que come os chocolates
de enfiada
a que te convida à repartiçāo do leite
De tardinha sou a mesma
que te comeria
mas de manhā nāo respiro nem como
só grito e rio entre o choro contido
e a exuberância da alma
e te pergunto embasbacada:
o que foi mesmo que me dizias?
eu, que na memória de mim
dormia
mas que na palavra escrita
rugia.

Sunday, March 13, 2016

está na minha hora

e se eu acreditar na brincadeirinha de que nāo somos
nada?
e se eu me convencer que nāo me amas nem desejas
nem sonhas nem te enlouqueces entre as paredes
grades sonhos de teor horripilante?
se eu acreditar
o que fareis?
entāo, aqui vai um conselho de amiga
se queres que te faça um favor...
eu, se fosse a ti, no final
final finalzinho de qualquer coisinha
qualquer coisinha mesmo
tipo lagartixa...
eu, se fosse a ti, dizia-lhe:
"amo-te"
porque lida linda lambisgóia
como é
mais dia
menos dia
ainda se lhe acredita!

ponto

obrigada pelo silêncio com que me fazes
sereia feiticeira inteiramente exposta ao que escolhes
nem me dizer
nem sussurrar
prenhe
da falta do som e do espanto e das setas
armadas pontas pontarias certeiras
atravessando-te dragāo
obrigada por assim ficares em mim
como a àgua na chuva
e tudo o mais que nāo beijas nāo pedes nāo dás
nem suportas
quando eu
simples te pareço espelho esquecido do teu peito
bom.
Opaca como o tempo
clara e vidente
e virgem edénica bíblica poeta
de além e de aquém-mar
Tanta tanta a mágoa que me trouxe o amar
te agradeço pois o reflexo de quem
nunca amei e nem amo
e nem assim assim assim assim e nem sim sim sim
sim
Calmo e omnipotente e tāo Lindo
que a beleza é Tua apenas
e eu Tāo leve e angelical
que nāo quero nada nem desejo o nada
que nāo seja a falta mais certa de tudo o que houver.
Obrigada amor pelo selo de quem se ausenta no lago
lago lago lago lago do nāo ser
meu.


Saturday, March 12, 2016

de lá para cá, de cá para lá

Desnudarte de principio a fin,                                  
a saia caindo no chāo, as pernas nuas
sin tocarte.                                                                                                    
sem tuas māos
Comenzar a  besarte con eléctrica intermitencia,
acariciando minha língua numa fuga musical 
mas suave.                                                                 
Paulatinamente ir subiendo la intensidad             
para solo bajarla después.
Paulatinamente abro-te a boca, os braços,
as pernas enquanto a saliva escorre
só para começar tudo outra vez
Volver al principio.                                                                  
Seguir como Sísifo,                
mas contento.                                                                      
Acariciar todo menos lo más;                                        
lamer todo menos lo más;
refaço-me na saliva que me dás
besar, morder todo menos lo más.                       
Intocable pechos, intocable sexo.
o demais
Y así por tiempo inaudito.                                      
Así hasta volverte loca, con-loca.                                     
Sigo sin tocarte.                                                                      
Me muero solo de verte sacudida.                                          
Me muero de no poder:                                                                  
Me muero de gusto.                                                                                     
Me muero
entre a minha pele trémula
arrepiada descabida                                                               

perdoa

cansei-me de nāo ser poeta, o riso nāo se coaduna com
o cantar alquebrado dos meus ossos
lira renda e espanto de assobiar
quero deitar-me e continuar sem quase respirar
deixar-me quieta num cantinho de mar
onde nem as ondas venham rastejar
quero ficar-me areia nos entresticios
das rochas filme de soprar
ser quase tudo e ser o nada sem falar
perdoem-me os que me queriam de carne
de agarrar comer mastigar e penetrar
a minha carne é inútil
frente ao estar
por isso
me quedo agora
dentro da lágrima aguada onde desenho o poema
que me levará por onde o tempo
nāo roa o meu cantar.

Sunday, March 6, 2016

se

se ao menos soubesse o que te disse
se ao menos pudesse dizer-te qualquer coisa
se ao mais não me faltasses
se ao mais eu respirasse
senão houvesse tanto silêncio
senão troasse o meu pesar
se nunca me tivesses dito nada
se nunca te encontrasse o olhar
talvez assim se pudesse descansar.

Friday, March 4, 2016

Monge

Pergunto-me se me construiste vírgula a vírgula
entre as Maiúsculas e as interrogações
invertidas. Pergunto-me como se fora um comentário escrito à margem:
lês-me ou escreves-me?
Mas como Deusa me sinto entre as marcas de pontuação
amada no cerne do ser onde a palavra me erege
entre a pulsação do coração e a plácida mentira
da vida.
Sem corpo que não seja o corpo do texto
onde me adoras
inutilmente me mumificas
possuindo-me na eternidade dos teus dedos.
O sem tempo é meu
para sempre Amada
na virtude do instante em que me lês
Ereto tu
e eu, em hercúlea adoração.

Sunday, February 21, 2016

twenty-two

twenty-two pages read in a couple of minutes
and a piece of paper with news from the past
irrelevant they were. Now, I think about the minutes after
they were written,
the whispers that followed,
in-between laughter and babies.
i realize that in a nanosecond, this zip of a second.
i couldn't laugh then
i can't laugh now
the world of twenty-two people went upside down
in a whisper. (I felt it coming
but not quite.)
hell is back, it comes fiercely and I pause the
writing;
the flames burn my chest and i remember how wet
I used to be, how wet I am
but hell is here.
water and fire do not go
earth and fire do not go
Above all
lies do not go.
(lies always go)
I need to be better than myself
she told me, knowing i have been;
i need to overrun myself too
i'm no good when i'm just being good,
Be better.
I will,
even though the world is coming to an end
and there's no hope in site:
In 2050 there will be more plastic bags than fish in the sea.
I wonder about the preposition.
nothing matters much,
it's just what it is.

talvez

Aterrorizada perante o silêncio que nāo escuto
agarro da faca do canivete do cutelo mal afiado
e preparo-me para o corpo a corpo.
O olho no centro da casa geme
e o meu cú sentado na cama
escuta o rasgar da porta
o arrastar dos pés e a afliçāo do ladrāo (que nunca vem) (amén)
Só me vem o terror absoluto
perante o silêncio que nāo escuto.

Amanhā hei-de fugir meter-me à estrada
e correr desse gemido imenso que
me enfrenta os dedos,
E a faca
que
tomba
displicente
frente a mim.
Nāo choro.
Se meter a faca entre os dentes cortar-me-ás a língua.
Nāo choro.
Se meter a faca entre os dentes onde meterei a comida?

Na paralisia do terror
deixo o cú por sobre a cama.
Quedo-me
e escuto
a agonia da casa
que morre
fedendo peidando
cuspindo seu escarro grosso e verde
sobre mim.
Pávida e leve
nāo me levanto.
Que a morte que se abate certa do centro da casa
caia exata sobre mim.




trova

se ao menos a dor nāo espantasse tanto
e os dias nāo fossem iguais aos dias
se tu fosses o trovador e eu nāo fosse a amiga
nem o amor nem a amante nem a amada
quero ser a trova
ser a voz da tua boca
e assim ser nada
a nāo ser música
a perfeiçāo da nota abençoada
se assim fosse que bom seria
escapar ao destino dos dias
iguais aos dias
e tu
o trovador.

Thursday, February 11, 2016

a ausência da palavra

entre o baque na boca do estômago e a
ausência da palavra pura a putrefacta alma
com que quero te quero reitero te quero
sei lá
para além de Sevilha
das sevícias da polícia
do horror do corredor
onde frente a frente se alinha sem eira nem beira
a passagem
para
onde
nem tu
(nem eu)
nem nossas pernas venha a noite e venha o dia
alguma vez se entrelaçaram rumo à vida.
entre o baque na boca do estômago e a
ausência da palavra pura a putrefacta alma
saca dos dedos em agonia
e
escreve
como quem te escreve
como quem se suplicia...

Tuesday, February 2, 2016

E ao chegares


E ao chegares 
contar-me-ás da noite
interminavelmente lenta
e dir-me-ás se adormeceste exausto e exangue da nossa madrugada 
dir-me-ás

esfreguei-te de mim
e  fechei a luz do quarto
despi-te de mim
e do mais
nada te direi porque nada guardei
não ser os olhos fechados à fome da tua voz inútil
vinda do teu corpo silente ciente e ausente na minha escuridāo.

pergunto 
pergunto-me 
como suportas tu carregar-te em gritos
em meio ao meu riso
que absurdo e imenso invento
na esperança de te ver chegar?

Friday, January 29, 2016

Declaração

Declaro definitivamente que aqui se acabam
as lágrimas, a tristeza, a esperança sobre o corpo
moribundo
fedendo já, dada a natureza absurda do ser humano.

De ora em diante, te adoro, desdigo e  des-largo
enquanto o corpo se arrasta se entrega e goza
à delicia escusa da carne alheia. 
E devagarzinho morre como previsto
no Livro das Horas.

Aqui juro, de joelhos, que nem corpo nem lágrima
nem gozo abjecto te ofertarei.
De minha boca, apenas a minha língua
o riso e o instante fugitivo
de quem te faz poeta
muito além do comezinho.

Assinatura em baixo
ilegível

Saturday, January 16, 2016

menina

obrigada pelo nāo e pelo ai com que me brindas
eu, que em silêncio morro dia após dia
agradeço-te o fim que se estende em agonia
as lágrimas que como como quem te comeria
e tudo o mais que só quem chora como uma menina
ainda guarda entre os dedos entre a alma e o que seria
nāo fosse o desencontro do dia e o pavor da afazia
fugiria para onde nem minha sombra contigo se cruzaria
fugiria para onde me nāo visse nem nos espelhos da vida
e nem nas águas onde um dia me afogaria
este verso sobraria.
Leva-me para onde te nāo ouço nem grito
nem o tempo nos consome o amor com que te amaria.

Tuesday, January 12, 2016

minha irmā

só minha perene irmā linda e louca e de cabelos negros como uma serpente
que tece a manta de família
me estende a māo me dá a vez e me alumia no deserto do gelo em que nāo sou eu
nem nós nem laços nem estreitos peitos nem gente que se entende no soluço
curto
em que me embala seu canto inaudito de māe que nāo tive e de pai que nāo queria.
minha irmā mulher penedo rocha e riso me guarda do medo imenso e da falta da
saída do dia que encurto esmigalho aperto e qual porta arremessada à revelia
reverbera como cobra d'água signo do espasmo incessante em que já se fazia
menina
e que eu
ainda
agora
mal sei o que seja a nāo ser da alegoria
minha irmā me aguarda entre as paredes de alvenaria velhos vizinhos e coisas de
alegria
mesmo que mais dia menos dia me arremesse contra a porta que bramia.
minha irmā
que nunca se contraria.

Sunday, January 10, 2016

em poesia

fico-me na ilusāo de um silêncio endemoninhadamente negro
em que as vozes do que jamais serāo meu guia
seguro-me às paredes do quarto antes que a casa caia
irremediavelmente
e a tua cave me engula na imensidāo da morte
onde encontrar-te nāo creio pois que mesmo em vida
te deixei cego horrorizado de ossos mal lambidos
tendōes expostos ao gelo que queima absurdo e branco
e nada mais
que água
pronta
à estúpida Primavera em que viverás incolumemente cego.
cego. cego. pois que tal como temias comi teus olhos e
chupei-os lentamente e cuspi-os
à luz do dia
onde me faço a monstruosa mantis que te agradaria.
Serei assim orgia bacanal ensandecida possuida alagada das gândaras
de sei lá que gente que deveria ser a minha.
Seja assim
ao menos
em
poesia.