Sunday, November 27, 2016

Sombras

A minha alma clara, emagrecida da dieta dos dias
enreda-se no fio invisível que me liga aos animais
e busca a luz por entre o breu dos meus sussurrantes móveis
mobiliário de família que se escusou à monarquia
elo da única vida que lembro por entre réstias de sol,
arrastões de sombra, e meus aguados papagaios paraenses
que há muito perderam a fala e o siso.
Viro-me para ti, sombra de Cupido, manjar dos deuses
suplicantes e esquecidos
que se me ofereces à esquina, à guisa de esmola
esmaecida a tez na persistente negação do peito
apesar das mãos trementes
suspeita obscura da carne
livre do riso
e ainda assim cheia
de plebeias ideias
rotundas e infindáveis loucuras
porque suspiro, baixinho
por entre o fio de luz
que me liga aos animais.
Alma de palavra
a ti me entrego
em bandeja alta
fortuito fausto de teus sonetos
fodidos.

Wednesday, November 23, 2016

my fatherland

I shall tell you about my father meu pai meu medo
dir-me-ás quem és                   you shall tell me who is
                                                 thou
de mim não perguntas nada           no questions asked
pois apenas a mim queres            my nakedness is the want
nua
through the soft lens of the Summer
gone

I shall tell you about my father

but for the night all I see is the Virgin Mary holding the baby
around your neck though my sister's necklace it was
and on fire                                    adorning your neck

before the night is over
all I see is your neck

around my hands

on fire

and the Virgin Mary holding the baby

in America

... slowly the whiteness takes over
erasing all trace of us
our bodies and laughter
and tears
submerged under the sheets
of white that eventually
will cover all the tiny secrets
made of screws and nails
lost
in the drawers of the houses
... slowly the whiteness takes over.

Tuesday, November 22, 2016

i am going to go dancing, she said, in perfect English

i am going to go dancing
in the garage
to music
that makes me smile
then i'll take a sip of wine
wear my white lacey nightgown
and sweat it all out.
or.
if i am lucky,
i may get someone who is actually not coward material
to invite me dancing (there's no superflow of those, mark me)
barefoot
with my hair up
and i will sweat until the whole thing falls down
in the meanwhile i'll dance in the garage
smile all the time
smoke the smoke of clouds
and eventually levitate.
i am pretty certain i can fly.
Do you want to see?
That's what she said,
in perfect English.

Monday, November 21, 2016

meu Brasil

Não é que a América não me doa, medóisim
mas o Brasil me magoa, me fere de morte
me atinge no fundo do peito e ainda reverbera
berra, grita, atira direto do gatilho contra
contra contra como me estilhaça a alma
e a esperança e a certeza de que haveria céu
em algum lugar
o meu Brasil que não vem de Caminha, nem de Cabral
nem de Freyre e de menos ainda, mais ainda
meu Brasil se fazia de amor de pindorama
de pau e de pedra e de sonhar o meu lugar
um dia
em meio a Elis que me deixou chorando
e Adriana que me ensinou a cantar
vi D. Moema partir e o comandante voar
e eu
menina de mais para saber falar
cantava baixinho o que nem poderia explicar
Meu Brasil
meu Brasil de Robson que é para sempre
de Sayonara que é para ficar
de Daniel para respirar
de Rosemeire que é meio eu, meio outra
de Rosiana que é de Belém onde me tem
de suas irmãs serenas, sua mãe amada e
meu Padre do rio Mojú
onde nem pude nadar
meu Brasil
do meu amor que sempre foi de dar
eu que já não tenho pátria e cuja mátria
arrancaram do lugar
deixo aqui meu peito exposto
meu mamilo sangrando
meu coração sussurrando
meu Brasil meu Brasil meu Brasil
brasileiro
se ao menos pudesse te aninhar em meu seio...
vem Jorge, vamos tocar
nosso Brasil ainda vai chegar


Sunday, November 20, 2016

Entrañablemente amable

Amavelmente estranho
                        a tua escrita
chegava regularmente
                        e o meu sorriso
insólito                enchia os minúsculos
segundos                em que te lia
            primeiramente
apenas de soslaio       te lia
Estranhamente amável
                        E assim correram os anos
entranhadamente amável já
sem que pudesse discorrer         leitora que sou
             agudissimamente cega             estava
                        e não                 esperava
que tal amabilidade
se atracasse assim
às entranhas      nas nossas mínimas
                                                                           algaraviadas
Hoje, sento-me na beiradinha
               da      linha
             e balanço
             enquanto tu
Amavelmente entranhado
             nos sustentas
  entre a ausência da letra
      e o intragável corpo do querer
          imperceptivelmente                  amável.


Saturday, November 19, 2016

vou fazer cinema

vou fazer cinema
da história de um telhado que tinha ruído
e de dois homens que se tinham atracado à porrada...
da precisão das mãos no meu corpo 
e da certeza da minha respiração na noite 

mas a banalidade do encontro dos corpos na escada superou-se a si mesma 
(apesar do horror da dor ) e a minha boca escancarada no grito
abafado pela água quente e o excesso do espaço dos homens 

nojento brutal assustador 

apenas no horror da sua presença. 

E tu. Entre a tristeza de me veres e seres poeta. 
Entre deixares-me fugir pelos recantos do meu corpo atroz 
e ajeitares-me junto ao peito. 

A água quente, 
os resquícios de uma árvore nua 
que não se sabe como não flutua  
Assim eu.

Guardo tudo isso dentro da cinematografia instável da memória.
quase que te ofereço um beijo
(mas nunca precisaste de mim)
deixo que os meus lábios te toquem de leve.
vou fazer cinema.