Sunday, February 21, 2016

twenty-two

twenty-two pages read in a couple of minutes
and a piece of paper with news from the past
irrelevant they were. Now, I think about the minutes after
they were written,
the whispers that followed,
in-between laughter and babies.
i realize that in a nanosecond, this zip of a second.
i couldn't laugh then
i can't laugh now
the world of twenty-two people went upside down
in a whisper. (I felt it coming
but not quite.)
hell is back, it comes fiercely and I pause the
writing;
the flames burn my chest and i remember how wet
I used to be, how wet I am
but hell is here.
water and fire do not go
earth and fire do not go
Above all
lies do not go.
(lies always go)
I need to be better than myself
she told me, knowing i have been;
i need to overrun myself too
i'm no good when i'm just being good,
Be better.
I will,
even though the world is coming to an end
and there's no hope in site:
In 2050 there will be more plastic bags than fish in the sea.
I wonder about the preposition.
nothing matters much,
it's just what it is.

talvez

Aterrorizada perante o silêncio que nāo escuto
agarro da faca do canivete do cutelo mal afiado
e preparo-me para o corpo a corpo.
O olho no centro da casa geme
e o meu cú sentado na cama
escuta o rasgar da porta
o arrastar dos pés e a afliçāo do ladrāo (que nunca vem) (amén)
Só me vem o terror absoluto
perante o silêncio que nāo escuto.

Amanhā hei-de fugir meter-me à estrada
e correr desse gemido imenso que
me enfrenta os dedos,
E a faca
que
tomba
displicente
frente a mim.
Nāo choro.
Se meter a faca entre os dentes cortar-me-ás a língua.
Nāo choro.
Se meter a faca entre os dentes onde meterei a comida?

Na paralisia do terror
deixo o cú por sobre a cama.
Quedo-me
e escuto
a agonia da casa
que morre
fedendo peidando
cuspindo seu escarro grosso e verde
sobre mim.
Pávida e leve
nāo me levanto.
Que a morte que se abate certa do centro da casa
caia exata sobre mim.




trova

se ao menos a dor nāo espantasse tanto
e os dias nāo fossem iguais aos dias
se tu fosses o trovador e eu nāo fosse a amiga
nem o amor nem a amante nem a amada
quero ser a trova
ser a voz da tua boca
e assim ser nada
a nāo ser música
a perfeiçāo da nota abençoada
se assim fosse que bom seria
escapar ao destino dos dias
iguais aos dias
e tu
o trovador.

Thursday, February 11, 2016

a ausência da palavra

entre o baque na boca do estômago e a
ausência da palavra pura a putrefacta alma
com que quero te quero reitero te quero
sei lá
para além de Sevilha
das sevícias da polícia
do horror do corredor
onde frente a frente se alinha sem eira nem beira
a passagem
para
onde
nem tu
(nem eu)
nem nossas pernas venha a noite e venha o dia
alguma vez se entrelaçaram rumo à vida.
entre o baque na boca do estômago e a
ausência da palavra pura a putrefacta alma
saca dos dedos em agonia
e
escreve
como quem te escreve
como quem se suplicia...

Tuesday, February 2, 2016

E ao chegares


E ao chegares 
contar-me-ás da noite
interminavelmente lenta
e dir-me-ás se adormeceste exausto e exangue da nossa madrugada 
dir-me-ás

esfreguei-te de mim
e  fechei a luz do quarto
despi-te de mim
e do mais
nada te direi porque nada guardei
não ser os olhos fechados à fome da tua voz inútil
vinda do teu corpo silente ciente e ausente na minha escuridāo.

pergunto 
pergunto-me 
como suportas tu carregar-te em gritos
em meio ao meu riso
que absurdo e imenso invento
na esperança de te ver chegar?