Sunday, December 27, 2015

por ti quero ser nada

por ti quero ser nada, e eles hāo-de ser tudo
pois que te ganharam antes de mim
e que assim seja é o que Deus quer
e eu
como te sussurrei por entre os pingos da chuva
eu sou apenas a sombra do mar
onde te deitas
a voz perdida por entre as frestas de uma página
onde nāo me é dado ser.
portanto, por ti, e por eles
quero ser nada
pois já nem me encontro dentro de mim.

Wednesday, December 23, 2015

escrevo

render-me à evidência que possas saber mais do meu corpo do que eu 
através do teu 
é algo 
estranhamente 
apelativo.
assim como as minhas paredes, 
onde te empalas 
sem pele já.
e ainda assim,
mudo.

escrevo.
e
sinto.

no escuro

sem dizer onde se senta o tempo
ergues-me na força do braço
e engoles
gota a gota
o cerne da escuridāo
onde a lava humana é ida
mas que em vulcões respira.
Nāo me lembras nada nem ninguém
pese embora a inocência
em que nāo sussurras meu nome,
no escuro.

no wink

no wink, just a bite in the neck
no hands
your fingers have been eaten by my insides
and one can hear nothing
but the richness of the sound.

As the tongue swirls around the golden
glue
of my broken eye
with no pupil
you are the one who must lead the way onto the epicenter
I.
will hold.
the muffled cry.
inside.

for-ever

as my body disintegrates and you escape into
no man's land
the center of the heart remains throbbing
on its own
as if the magic of love is self-sustaining.

Friday, December 18, 2015

prontinho para voltar.

quero a tua alma para sempre e para nunca mais
até lá
atravessa-te no meu caminho, deita-te sobre os trilhos
e deixa-me passar
passarei e voltarei ao bater da hora no minuto exato
do dia em que te queira mais
até lá 
tranca a tua porta, corre as persianas
deita-te quietinha e deixa-me ir e talvez voltar
e lembra-te:
nāo respires nem procures respirar
deixa-te estar que beijarei tua carcassa ao amanhecer
desse dia
em que vou estar 
prontinho para voltar.

Tuesday, December 8, 2015

Ser

vejo as lágrimas em rio
e o deserto que se abre
aos molhos do sal
frente ao pânico de nada poder
nem
nada
Ser.

Ouço o silêncio do leito e do terror que já conheço

Ouço o silêncio do leito e do terror que já conheço
de outros filmes antigos onde cada um que nāo entrava
eram os dedos que recontava
(nāo me contes nada pelo amor de Deus).
Ouço o grito rouco de cada sílaba escondida
que te há-de levar à afonia.
Maga predisse o medo no exato instante
como se futurologia fosse milagre
na face do medo transmutado
no teu rosto lento de alento e desejo
imutável
maciço
permanente
costurado entretelas com bainhas invisíveis.
Que grande coisa fiz!
abrindo o espaço da morte vivida vez a vez
como se fosse piada.
Morta a santa sem puta que a substitua com
a
devida
grandeza,
estouram-me os tímpanos na mudez do dia
surda que estou com tanta gritaria.