Sunday, June 28, 2015

Não fui.

Segurei as lágrimas na Baixa do Sapateiro
Onde nem sapatos vi
E onde os morenos não são os mais lindos
Da Bahia
Não amarrei fitinha de Nosso Senhor do Bonfim
E segurei as lágrimas
Não chorei e caminhei
Caminhei a esmo
Sem igreja que me guiasse
Os passos
Não me amarrei
Mas não fui ainda
Ía atrás de anteontem
E faz dias
Que não fui
E já vi Lisboa
Alfama no Pelorinho
A Baixa em Belém
Do Pará

Escutei minha prima escrevendo de Piracicaba:
Prima amada.
és mais lusitana do que qualquer alfacinha que eu conheça. 
Esses lamentos existenciais são seculares de almas que se perderam no além mar.
Mas também és Africana! Raiz força e júbilo de existir resistindo sempre sem esmorecer à maior injustiça da história da humanidade!
Rufem os tambores e dancem todos os Orixás…
Não fui prima
Fiquei
Mesmo
Sem nada.
Lusitana
Africana
Brasileira

Não fui.

salvé

no meio já tenho saudade de tudo
do rio marrom
das caras amarradas
das araras
da chuva da hora.
não posso te levar
no ver-o-peso
onde vendem benzedura
caranguejo
e açai
açai
açai guardiã

não posso te levar
para ver os meninos se beijando na boca
as meninas
nas traseiras das onze janelas
se beijando a toda a hora
não posso tão pouco parar na padaria
não tem como

tenho cheiro de outra coisa
Suriname Portugal Carioca
Qualquer coisa
Já tenho saudade de gente que não sorri à toa
E se confunde no mundo entre a Amazónia e a América
Do Norte
Tão linda
Tão longe

Que ninguém entende nada

Wednesday, June 24, 2015

acabou-se o meu jardim tropical

acabou-se o meu jardim tropical
nele seria linda e loira
tal qual a fauna nacional
ficou-me o jardim das traseiras
onde sem bunda e sem loisa
nem choradeira sem igual


lie to me

Lying still
Perfidious mute
Me too
pretending
To say.
Things.
Lie to me.
A little more.
I like it.

Imperador Adriano: conversa de pé de orelha

Esta almita tão meiguita
neste mundo perdidita
em Belém ou na Bahia
tantos duros lugarzitos
tanta gente pobrezita

ai nunca mais brincarás

Monday, June 15, 2015

Para além dos cafés da Brasileira

Que sou nada nem ninguém além da sombra à minha beira
Há muito sei
E gente que pessoa não era bem o disse
Para além dos cafés da Brasileira
O que vos quero dizer é dos
Que não têm crimes
Nem misérias mas palavras vãs e uma ideia
Quero dizer-vos desses
que dia nenhum se reveram na minha ausência
deixai-me que vos diga
Que a minha sombra é de luz
E que os meus passos são água
Água correndo em bica
Por entre o Tejo e o Amazonas
Belém do Pombal
Onde os pombos são garças
E os urubus a ideia
A ideia que os outros fazem
Das minhas águas sem rios
E dos meus pés sem beiradas
Um dia voltarei a casa
Voando sobre o horizonte
E pairando sobre o nada
Talvez assim me vejam clara
Sombra aguada do que de mim
Não paira

Pátria minha gentil que te partiste

Pátria minha gentil que te partiste
Em duas e numa deixaste o choro
E na outra deixaste o riso
E a mim me deixaste em meio
Chorosa e rindo perdida e louca
Entre o Brasil que sonhei e amo
E o Portugal que amei e sonho
Não sei do pretérito que escrevo
Nem do futuro sem tempo
Tão cedo desta vida descontente
Me imaginei lá enquanto cá
Seria
E quando lá me vi
Minhas lágrimas comia
Alma minha gentil
Que te partiste entre duas pátrias
Que já não são minhas
Ah! Se o mar tivesse varandas

Entre varandas me veria…