Thursday, March 29, 2018

Memories

I wonder if I am awake or asleep
for almost twenty years now that I do not
know
where I live, 
my memory of me evading my skin 
and landing
on the sidestep
staring
as if I were someone else
do you love me now?
did you love me then?
will you love me when I no longer
recollect
my name?
such perfection of forgetfulness
should be rewarded somehow
I will stand
your breath in my hand
bringing the blue the salt and the sand
and who I was or used to be 
will be nothing but your memory of me.




Friday, March 23, 2018

quando morrer, morrerei curada

quando morrer, morrerei curada
sem dores nem cegueiras nem
água na boca
verei todas as letras à medida
que a minha voz se aninhe
por entre os anjos e as trompetas
não esquecerei as letras jamais
e sem esforço cantarei para ti
perfeitamente
todas as notas
tal qual queres
Nessa altura, meu amor
podes abrir as janelas
todas as janelas
não terei frio
jamais
nem tu sentirás o terror
da minha presença
aprisionando-te o ar quente
pelo quarto mole
Morrerei curada
e tu terás para a eternidade
as janelas abertas
de par em par

são como grãos de areia

todos se vão
mais ou menos inúteis
mais ou menos vãos
são como grãos de areia
tantos e tão semelhantes
que não se distinguem
suas vozes
vorazes
seus corpos
flácidos
andamentos ao revés
das marés
o único prazer sereno
intenso doce imensidão
são os filhos
que nos dão


Thursday, March 22, 2018

enlaçada no trote que se faz presente a cada volta

enlaçada no trote que se faz presente a cada volta
escrevo-te vilancete e trova
só para que saibas que por ti não respiro
não gemo nem grito
para que saibas que por ti não existo
escrevo-te, meu querido, cantigas de amigo
De escárnio e maldizer
não tenho como e
cantigas de amor só mesmo ao alvorecer
de uma nova cantada
quando talvez me vendo já pelas costas
faças o que em desvario e miséria
meio mundo já fez
implorando-me
do alto da tua soberba
que volte aos teus adorados braços.
Mas dúvido
é que o meio mundo que assim
por mim clamava
no fundo
ainda me amava
enquanto que tu
mais não fazes do que aceitar
o que ainda tenho para oferecer
amostras de amor perdido
que guardo nos escaninhos
do meu abanico.

a propósito de Angélica Freitas

gostei dessa moça que escreve poesia
de enfiada como se fosse a voz danada
que sai da cabeça das coristas
coristas, palavra antiga que já ninguém
sabe que seja
será que ainda se vêem no teatro Villaret?
será que meu pai
que nunca serviu para nada
a não ser acabar com a minha vida
( e começá-la, e fazer-me irmãos
mais ou menos delirantes)
será que ele ainda me diria
filha minha nunca será corista
como se eu não fosse o que sou
como se eu não fosse um dia
primeira bailarina do Bolschoi
bom, já esqueci o que dizia
ah! sim, gostei da poesia
dessa mocinha de óculos
quadrados
que passa manteiga
em torrada de Blake
e come Rilke shake
nas noites de insónia
toasted-side up
me pergunto porque tanto
que ela fala em inglês
quando a nossa língua
é tão mais linda.
Mas repito
gostei da poesia.

Sunday, March 11, 2018

Finale

se tudo acontecesse apenas no final
seria talvez o grand-finale
tudo se engalanaria de vermelho e dourado e nós
prontos estaríamos para o desfecho
a apoteose da morte lenta porém
não há quem possa contar pois é da sua
natureza a lentidão o tédio a inacreditável
aceitação de que o amor que não foi não volta
e que o amor que se tem se se tem
é feito de tardes sem desvelo e de noites em
calmaria mansidão do que não é
pois que não é só do amor que a vida é pouca
a pouco e pouco
é também nosso corpo que de exaltação se erguia
e que agora de tempo e mágoa se ajoelha no chão
e onde até a dor só chove mansinha uma chuva pequenininha
que em meus olhos se aninha por algum lacrimejar
que ainda corre
para o fim.

Thursday, March 8, 2018

I shall tell them you love me dearly

I shall tell them you love me dearly
and passionately
that when I arrive at your house
you open the door
to hold me in your arms just to lift me off my feet
as if I were nothing but the girl of your dreams
I will tell them you caress me at night until I fall asleep
and that you never let go of me
afraid that I might die in the darkness of dreams
I will tell them all that is how you love me
so strong and pure and beautiful
I will tell them
that is how you will always love me

I wonder if such a lie will stand the test of time
I wonder if such a life is what I dream of
every time I do not stare into your eyes.