Sunday, September 29, 2019

lista das compras:

um vestido preto
talvez dois ou três
três blusas pretas
uma mola para a boca
um não; (não se fala do café)
um não; (não se falar de desejo)
seis nãos?
- a velocidade do carro
- o cansaço
- os cabelos enrolados nos dedos
- o pescoço torto
sete nãos; não fazer queixas
um chicote
 para o algoz me avisar
 com um toque mais ou menos leve
 quando eu pensar em abrir a boca
 porque sete chicotadas por dia
 que sejam
 são melhores do que a tua raiva altiva
 face à estupidez que me invade
 quando não sei
 o que disse
 e que tu ouviste
 e com que que reduzes mais uma triste
 insuspeitada frase
 à categoria
 de falta de respeito.
  Como se eu, se não te respeitasse, te aturasse
  a tristeza em que nos pões. E que suporto,
  porque respeito a triste vida sempre repetida
  em que todos nos faltam.
com o respeito
ou com amor
   mesmo quando ninguém faz nada.
Que merda de lista!

sussurros

encosto as palavras à boca e deixo que o sussurro
me abençoe como a única coisa certeza que tenho
que não sou dedos
nem maldade
nem morte
nem nada mais que um amor
ridículo ao qual ainda me agarro como a abelha
que hoje entrou pelo umbral da porta procurando
a reentrância onde esconder-se para a vida que a não visse
morrendo morrendo-se ali tão escondidinha no desvão
fui de mansinho com o incenso
talvez espantâ-la
para a luz lá fora
mas mais ela se aninhava
tão menina tão cansada
que só chorei
num sussurro
para não perturbá-la ali
na escondida hora da sua
morte
. como são vãs e espúrias minhas lágrimas
sussurradas
e como nem ela nem eu
somos mais que isso.

as veias grossas

mais um dia para a conta dos que não queria
mais as tantas horas que ainda faltam
para que se acabe este mesmo dia
que arrastarás sem dó por sobre
os tendões rasgados
os ossos quebrados
a pele tão fina
que se contam
as veias
grossas
transbordantes
da vida que era para ser.
Mais quantos mil minutos que não voltarão?
já nem pergunto, deixo-me muda no quarto frio
e tardas, não entendes ainda porque é muito mais cedo
e tardas, o mais que podes em descansar o olhar no meu.
Aprumas-te no horizonte longínquo, a linha tensa da tua nuca atrás
das nuvens e camadas e camadas de grossas e de chumbo gordas nuvens
que não chovem.

Felizes

os sulcos marrons que se abrem lentos
nos braços do mar que agora ondeiam
em meu corpo pequeno
esgarçando-se aflitivamente
pelo abaixo das pernas que apertam
no centro  do ser

minhas costas acima a verga espiga
da carne de algas e sal que se vê onda
em teu corpo enorme
espraiando-se pelando
o mapa de minha pele de terra batida
apontando o que
podia ter escolhido
ser a morte
em mim.
Mas não
sou teu bem maior
a luz imperial do que te faz sorrir
pela manhã
o diamante em que te
elevas sem traço
de não ser
tão suma e surda
que de mim fazes a faca
com que de perto
nos golpeias

porque ser feliz assim
é obra de demónios.

a chave

e a água que chove no rosto do vento que por lá fora
se atrapalha
entre o pó e as pedras?
e a água que me ampara quando quase caio
no poço
entre as pedras e o pó?
e isto que hoje ainda se alimenta
do ar
que o verde impávido vê do alto da inexistência
divina?
e isto que é a rota perdida de volta a mim?
(ou do que de mim fizeram?)
achas que tudo isto,
liso sendo seda do cuspo cuspido
daquelas lagartazinhas,
isto, e tudo isso.
Achas que é assim para que respires?

Wednesday, September 4, 2019

Amo Ama zónia zônia

E vejo as árvores que morrem de pé
seus cabelos verdes que se transmutam
vermelhos      cinza       e  suas vozes ao vento:

só a gente que árvore é
se deita sobre nossas raízes e com eles murmuramos: 
voltaremos    quando a loucura 
amainar
      e já pó cinza e nada os que hoje lançam chamas de suas bocas
 surdas
        pobres tristes    cristas roucas 
Voltaremos       lenta e ceremoniosamente
fénixes      renascidas dos seus restos mortais.

Escuto-as
e enrodilhando-me lentamente nos ramos que ainda
se estendem para mim
amo ama zónia zônia
                          e rezo
para que as árvores sejam livres por fim


Saturday, August 24, 2019

no embrião da tua morte


no embrião da tua morte
já eu me desvivia
tua boca aberta fugindo
do princípio do mundo
resistias a beber tua mãe
talvez já ciente
do pouco que se sabe
do que é vida ou morte.
Mas cedeste e eu
alegrando-me das redondezas do teu corpo
que afinal se domara aos meus peitos.

No final, porém, ida já do que de mim
se fazia
a casa te não reconhece
nos cantos nem nas poltronas
nem meu corpo sabe
mais onde vives
se na morte que de mim carregas
se nos fios das outras vidas
que de ti se desvanecem
Cansada deste ir e vir
onde a morte e onde a vida
viro-me para os azuis
que rumorejam do mar
longínquo
tão longe
que quase
só resta a lembrança

Viro-me de alembraduras
e nessa solidão do que de ti
me não chega
me debruço para o céu
Talvez de lá me aguem as nuvens
das águas do mar
e banhada assim me refaça peixe
molusco marisco estrela-do-mar
e não mais anoiteçam azuis em mim.