Wednesday, July 26, 2017

reflexo

vivo
contigo contido no canto obscuro da janela
da minha sala
que eterna
nos espelha contra os vidros mil
que daqui se contam estrelas
vivo
comigo ida da moldura clara
do vidro da janela da tua sala
que te espelha inteiro
nos braços dessas mil mulheres onde te inventas
e que daí te contam homem
sombra obscura
do retrato que faço
de ti
vivo
conosco
sem reflexo algum
que não seja o do meu amor
perfeito
em nenhum lado do espelho


Sunday, July 23, 2017

Dia

não te pergunto já nem na palavra nem
tão pouco na ausência ou na ida noitada
em que mal sonho com a tua escapada;
sem a bondade do dia na simples
interpelação matinal
não tenho desejos de ser gente
e nem tão pouco a morte procurar;
sem a esperança monótona
da tua quase mudez mais não quero
que a chávena do meu café
turbilhão concêntrico
onde ainda te revejo
à medida que as colheres de açúcar
se derramam
e calda fazem
da semente onde nasce a madrugada.
De ti
sobra apenas a doçura do meu café.

"amo-te tanto meu amor, não cante o humano coração com mais verdade"

Na antecipação de segunda-feira
não te falo no domingo
nem no sábado tenho nada a declarar
sexta-feira deixei-te as réstias do
Caminho das Cruzes
e na quinta-feira ainda havia
porque te chamar
quarta-feira eras minha e o
nosso dia infindo
num segundo por passar
terça-feira amada glória
a nossa história
que não posso respirar
segunda-feira à minha beira
que te imploro um só olhar.
E assim se foi teu amor profundo
nessa Semana Santa
em que me cri missa e altar.

quando a voz

quando a voz se extingue entre a lâmpada
da miséria e o surto de febre já nem amarela
pouco mais nos resta do desamor
da porrada da desgraça do corpo
esquecido à beira da porta
da entrada
quando perdemos sílaba a sílaba
o último rastro do afeto
em forma de apelo
de oração ou crença
em qualquer dia menos triste
que o de hoje
para quê
pergunto-me eu
para quê continuar
a senda desta vida
tédio e mágoa de não se ser mais nada
do que aquilo que se é?

oferenda

deixo-te ao menos a palavra vazia
o silêncio pleno, o mundo tão cheio
de nada que brota o cimento 
das rachas frias da calçada

Tuesday, July 18, 2017

die(t)

if I don't die in your arms
the first time
please kill me
with silk and milk
after you feed me bees and
cut my limbs free
with one stroke
one word
one bite
from the mouth I desire

Sunday, July 16, 2017

nada digo nem nada direi e no silêncio

nada digo nem nada direi e no silêncio
infindo assim te amarei
sem que de trocas nem medos
se encha a aurora o espaço ou o tempo
sem ontem
nem hoje
e sem tão pouco amanhã
sem palavras nem rosto
esperança morte e saudade
quieta estarei em descrente paisagem
lugares de musgos rombos
ruínas onde um dia alguém mais
há de passear
e um dia à tardinha
um esquife encontrar
e se ainda escrevo
é apenas para me castigar.