Tuesday, September 11, 2018

Caminho das águas


Me faço água abençoada por sobre os trilhos
das nuvens esburacadas de tanto avião
que vai e vem
sem bússola que lhes ensine outro caminho
chovo depois até
ao fundo do poço
para matar tua sede
Feita já reflexo do céu
lágrima
dos desgostos de Deus
Entre esse vai e vem
me esvaio

rodopiando por tua língua
refazendo o caminho das águas
cascata de tua garganta
que se entrelaça pelos liames
da perfeição do ser

e que ao final
de mim urina faz
excremento
do soro vital
que corre
recorre se recolhe e engole
eu feita tal qual Deus
que me putrefez
à sua imagem e semelhança





Saturday, September 1, 2018

A pomba-gaivota

orbiculanda ciranda plena praia ao vagar do
meu andar concêntrico
seguindo a orla do mar
e o rodopio das gentes
moços e velhos que assim
afastam seu azar do corropio do dia
ondeando lentos e cantando leves
a canção onde haveria de me jogar
se abrissem a roda.
Tateando rodada gente faço-me
giro espirolada pomba
aspirante a gaivota
e revoluteio no ar
a ciranda
e seu
cantar
afastando-se da praia-mar
e eu
já sendo peixe mensagem
pomba dos céus de Lisboa
sei que aqui ficarei
recifes e tubarões não assustam
entes voadores
e eu jamais porei minhas patas
no chão.

Friday, August 31, 2018

i couldn't love you any less

i couldn't love you any less
even if i loved you more
though clearly love is gone
and I
with it

Tuesday, August 28, 2018

In what side of the mirror should I hide

In what side of the mirror should I hide
if only now did the night fall
slow and mellow...?
Before the mirror talks
I will try to sleep
keep my mind away
so I don't get trapped
in it
The mirror calls
gentle and soft
but the night
is deeper
and the talking louder
With a white sheet
I cover it
hoping
somehow
the whiteness will wrap me
and cuddle me in its arms
until I am
no more
and see it
bright and clear
from within a calm whispering
light
with no thoughts of mine.
I just wonder
in what side of the mirror
should I hide?

Sunday, August 26, 2018

a menina do olho

Delicadamente colocaste meus olhos
no teu rosto
e agora, arrepiada até ao néctar
observo que vês
o que vulto nenhum viu
e
atento na pele que afina
e brilha estilhaçada de um cometa
em ascenção        e 
reparo na colmeia de onde colhes
mais que mel a brandura de minha voz
fidalguia de arroubos entrelaçados ao redor
da menina do olho
que me deixaste roubar
por meio minuto
um pouco mais
              e deixo que a tela
corra em desvario
    só para ver teus dedos que capinam
ervas p'ra colher cheiro de alecrim
verde e tenro por debaixo da pele
onde te adentras visionário de uma mulher
caída do altar
sobre fogos de assombrar.
Meus olhos espantados de tanto resplendor
inocente alucinado
riem revolvem revolteiam
em ondas que às vezes sulcas
com tua boca tão aberta que me mareio por um dia
inteiro.
Por isso, se por mais nada,
te daria qualquer gosto e
    dele faria frêmitos em êxtase
para que da nebulosa de mim
visses
o que agora vejo
graça garça rara rumorejando loucuras
que ninguém senão tu p'ra me adivinhar.







Thursday, August 16, 2018

Madame Bovary

if only being your wife
would satisfy
my insatiable
thirst of life
if only being your wife
would bring
you
to the brink of ecstasy
but you lay dormant by the window
while I fly away enwrapped in wind
Open the shutters
the silken curtains
and Come
before the rain curtails the chase
and there is nothing but a glass pane
where
your reflection
is but a gaze

quando me deixas sozinha

quando me deixas sozinha
os coelhos se alinham à minha porta
os galos empinam sua crista
os ovos se espalham pelo quintal
como se fosse Páscoa
e eu
renasço
mulher
na corola de um bemmequer
qualquer