Monday, October 16, 2017

entre dedos

até ontem o medo de te tocar
era tão real quanto a porta
que bate no final do dia
quando chega a estrada
e eu nem sei que horas são
até ontem minhas mãos
erguiam-se meio hirtas
meio mortas entre o desejo
da porta
e a chegada do final do dia
hoje te olho deitado
no fim do chão
entre o tempo que passa
e a minha própria solidão
e meus dedos
alongadas hastes
bicos de flamingos
suspensos
na cor mansa maranhão
de gansos e de penas que
se evolam no sonho
do teu corpo
que dorme na mais perfeita inanição
e se alongam,
meus dedos,
um terço de tuas mãos.

Thursday, October 5, 2017

pouco importa

te olhando tremendo te vejo silente
para além do momento
em que entras te sentas e me assentas
arraiais em mim dono de tudo
o que não te dou
pois nem eu sou senhora
do que de mim subtrais
no chicote do rigor
ou da mentira que deposito em tuas mãos
já lambidas já sugadas já comidas
por mim tão esfaimada da vida
que pouco importa a conta
das chicotadas prometidas

te olhando te digo tremendo
minhas pernas escorrendo
leite e todos os pássaros
que em mim voam cachoeira que sou
de ninhos recônditos
pouco importa a conta meu Senhor
porque agora a hora foi morta
e de lá dos confins do mundo
não mais Sua Senhoria suporta
a minha falta gloriosa



Wednesday, October 4, 2017

Equilíbrio

Balançando o pé equilibrando o pouco
espaço de um corpo que não é nem concha nem
estrela quase me estatelo
enquanto oscila teu martelo de rachar
no meio os precipícios mais azuis
escuros onde minha extemporânea cara de menina
te olha entre o mundo estilhaçado
e os pedaços incrustados
no precioso abismo que espias e
que chora
pois embora nossa boca ferida
se ajeite no beijo de ladinho
em cuidados mal esboçados
vão já altos já lavrados os mesmos velhos
sorvedouros
que douta cavo
e que sábio sulcas
na desilusão da queda em que sem surra
se suspende a aurora do que seria nosso amor sentido


Wednesday, September 27, 2017

segues reto pelos recôncavos e baías

segues reto pelos recôncavos e baías
que permeiam meu longo vestido onde teus dedos
levam meus joelhos
tremendo ao genuflexório
de todas as trezentas e sessenta e cinco
igrejas da cidade
por onde pairam
todos os anjos destrambelhados
entre teclas e cordas
que não há
quem reja.
sigo subindo ladeiras e escarpas
mirando do alto
o mar onde abraçamos esse rio tão frio
de canoas a flutuar e
árvores de redondos frutos
que teimam em escorregar
e esparramar-se leitando-se
mornos por nossas bocas
encaixadas em nossos
sonhos
de corda
que sem medo
transitam soltas entre o meu vestido
e os teus dedos de seda encaixados
na perfeição dos
nossos nós.
não resta mais que
apontar-te o céu onde te elevas
no enlevo do vestido
enquanto
tocam anjos e se afinam santos
pois por entre o vestido a seda e os nós
o que se espanta são os dós de peito
que trepam pelas bocas
nossas
sem medo lambendo o tempo

Tuesday, September 19, 2017

assim repito meu canto

a ti não amo e por ti paixão jamais
conjurarei
de ti não me vem amor nem pranto
por ti não respiro nem clamo
assim repito meu canto
noite sem luz onde sem vez
me chamo à ordem dos segundos
fatídicos
onde se ordena a cadena certa
o terço sem nó
em que enrodilhada no teu olhar distante
laço longo de atar-me ao pasto
onde a grama é alta e a cerca é
passo sem muro nem jardim
me vejo assim
pouco mais que um sorriso
que mal esboças nesse fandango
em que não nos tocamos
nem no princípio nem no fim
simplesmente porque
a mim não amas
e por mim não respiras nem clamas
assim repito meu canto
lugar de ser gente
em mim

Monday, September 18, 2017

os longos dedos escuros

os longos dedos escuros estirados sobre
a pele crua
onde poderia dormir meu peito
se os olhos não buscassem
a sombra dos teus cílios
que se estende infame sobre
meu sono
leve
onde amarras
raízes de samambaia que
estranhamente
nesta casa
se erguem em direção ao céu
que cresce na minha boca

Sunday, September 17, 2017

sendo o céu de um azul pérfido e

sendo o céu de um azul pérfido e
nuvem tão branca quanto as asas
do anjo
Gabriel
viajo dia e noite até às reentrâncias
da cidade velha, Havana
que vi tão perto que alguém me chamaria
cubana
mas não sou de lá nem de lugar nenhum
que do céu mais
puro e pérfido onde o agora
o ontem e o jamais
se diluiem rumo ao regato
de um hiato no vago
contorno de um abraço
onde poderíamos ter
sido
o que ninguém brada
aos sete ventos
mas Virgem
avisada calada e certa
tão linda quanto pérfida
cedo ou tarde
roubarei a trompeta
e troará o silêncio que nossos nomes ecoa