Sunday, July 15, 2018

a lua e o milho

Te vejo trevas por dentro a escuridão
do sorriso sem réstia de dó
me perco sonho e sentido
no aconchego do ré e do sol
me afastas do peito o sonho
esgravatas lua ao revés no lençol
acordo nauseabunda
chegas a mim vomitando
as contas do missal
que transmutaste em escremento 
meu medo sepulcral
formigas do centro da terra
te atacam ligeiras então
e é dessa raiva inaudita
contida em campos de milho
que cresço espantalho
e esbracejo o coalho da lua tão agra
no velho colchão

Me ergo dançando flamenco
e já castanholas
rasgando o semblante que é teu
viés avesso dos corvos
que não arrasam o milharal
escondo a carcassa fedida
que ainda verte dos meus olhos
ressequidos ao sol no varal do quintal

e canto secas entranhas
elevando o sabugo aos céus
determinando zoada já estilhaçando
em ais pútridos tua liturgia final:
Ais desandarão o templo
vaticino eu Profeta meus braços em cruz
abençoando merecimentos
e meu espantalho dançando flamenco
sem medo reluz ao sol que te serve de sustento.



Saturday, July 14, 2018

meu pobre coração

serei tua podre
verme nojento ser
mais livre que todos
os dias que não tive

matá-las-ei a todas
essas pobres mais
nojentas criaturas
ainda
com que te sujaste
para mim

ah já escrevi sobre este ódio amor maior
que me cai no feminino pois que centro
do meu ser
mulher que sou

agora meio podre
verme nojento ser
mais livre que todos
vós
que a mim não roçam
senão no início da barbárie da traição.
Ah que me não viram ainda força bruta
contando as balas uma a uma
pronta a disparar o gatilho
pelo pescoço talvez
esperando que se me apague
a cabeça antes que o coração note
e se cale, magoado
meu pobre coração
tão maltratado

Wednesday, July 11, 2018

tenho medo da luz que me alumia

tenho medo da luz que me alumia
e que há anos espezinho
como se pico fosse
de alguma erva daninha
tenho medo desta luz que alumia
caminhos vesgos que não quero
nem entrever
quanto mais sentir à flor da pele
tenho terror desta coisa que ao redor
de mim ama e do centro de mim
exala
pétala das mais finas
que tu mesmo de Rosa me chamarias
esta coisa de mais de mil metros de AlTura
esta coisa de olhos óbliquos e fosforescentes
esta coisa que me alumia
quando tem fome
é de mim que raspa ventre
e come.
cega me queria.

palavras minhas

e por mim o que farias? que mundo descobri
rias
tu
pormimquenavegonestemarsemfundo?
respondo por ti e digo que te farias caravela
barco ou ponte sem princípio nem meio
nem fim
porque só assim
vale a pena um amor
que não é que eu valha alguma coisa
por si
mas porque no mar sem fundo onde
navego sem cesta que me acolha
o peixe
nem vela que me leve a porto
seguro
e menos ainda
escamas de sereia
...
nesse mar sem fundo
nesse mar és Poseidon
e não há puta nenhuma
nem Virgem Santa de todas a Altíssima
que ai te ponha
senão eu.

Tuesday, July 10, 2018

inversa a boca submersa

sento-me de cabeça baixa
enquanto a água flui às catadupas
pela minha boca
quieta submersa inversa a medida
pela qual me meço em litros
pela qual me afogo nessa fonte onde
no fundo da nossa gorjea garganta
infinda tudo o que é grave se encanta
e a água flui às catadupas
e incandescentes imersos
embebidos e ardidos
lavamo-nos enfim
no cuspo
que escorre nesta aguada
catarata
transcorrida em gozo
sob um céu
mudo.


gaslight sisters

I see it flickering I see it not
the light is gone the gas is on
the light is on the gas is never off
the water lays on the floor
of the bathroom
while she washes
endlessly
the shame off her filthy
mind
and wishes for the gas
showers
that would save so much water.
As she faints slowly in my arms
and I drag her onto the light
the water
pushes the walls away
and there we stand
holding onto one another
naked and wet
I wonder if the world
is watching
all this gaslight

o princípio do mundo: poema sinfónico atribuído à mística Gandhāra

embaralho meus pelos nas notas de Mahler
e em cada linha da partitura meus poros
arrepiados seguem o caminho do teu escutar
esqueço tudo o que alguma vez disse sonhei
ou soube para me refazer em quatro
movimentos. De uma marcha fúnebre
sem fim me vejo renascer
e chegada ainda viva
do inferno ao inferno
em versos octossílabicos
seguidos do mesmo
estribilho
pianíssimo me sussurras no ouvido
enquanto segues dirigindo a orquestra
allegro furioso
me abrindo num lá em sete oitavas
rimando intercalado
a cada três versos
a que me enlaças
dizendo
Volta
e o mesmo estribilho
sete oitavas
pianíssimo e teus dentes já lacerando
minhas costas
para que para lá da orquestra
não ressoe um pé
e nem se
calem as oitenta vozes
que de mim se erguem
em contraltos baixos e sopranos
reescrevendo a história do mundo.

Nem tudo está nos livros
mas misticamente me hei de reescrever
qual Titan em poesia estrófica
de tal modo cósmica
que ao leve balançar de uma batuta
se tragam arianos e árabes ao mesmo lugar
o princípio do mundo
e nada menos,
se há de revelar.