Wednesday, January 25, 2017

I am


My parents left me when I was three months

I have an Angolan sister
or maybe two or three or four
a Brazilian sister deep in my heart
one Portuguese brother in my arms
and four Swedish brothers and sisters
with whom I do not sit
in the family photos
my father swam from Cape Verde to Lisbon
from Lisbon to Brazil
from Brazil to Sweden
a swimmer he is
my mother is Portuguese
my grandmother smiled tenderly from Cape Verde to Lisbon
my grandfather flew a boat from Goa to Lisbon
from Lisbon to Goa to Lisbon
forever Lisbon
my great-grandmother jumped on a gypsy cart
from Niza
a small village in Alentejo
to Lisbon
my great-great-grandfather was kicked
from England to Lisbon

I used to have a baby in my arms
she dreams in English
I
I write in English
now and then

              I do not know
who am I.

Thursday, January 19, 2017

Digo o teu nome, resposta a Mia Couto (talvez)

Digo o teu nome
sílaba a sílaba
como achas que me queimam a boca
cinzas que brilham
na escuridāo do dia
enquanto os meus cabelos
se aquietam
Para ti
à medida diária
em que cresces em mim
fogueira que alimento
sem pau nem madeira
um altar sem lugar
nem tempo ou cantar
Digo o teu nome
para a minha boca apenas
e dentro de mim
te recolho escolho
dos meus dias feridos
tesouro dos meus longos
sonhos nocturnos perdidos
porque a minha boca insana
espelha a saliva e a terna esperanca
E porque morri ontem
ainda antes de chegar
invento
outra forma de navegar
outro lugar onde voar
pássaro esperança de um cais onde atracar
na humidade do cerne do meu falar
Digo o teu nome
como se me fosses alagar
e eu um rio pronta a desaguar

e isto, tudo isto, para que me reconheças
e te atrevas ao leve sobressalto
de suavemente escutar
o teu nome
na minha boca

Tuesday, January 17, 2017

jamais aterrar

me seguro no teu rosto bom
nas pintinhas do teu braço
nas nuvens do teu cheiro
e recuso a madrugada
quando os meus olhos
se enrodilham no dia
e meu corpo se entrelaça em nós.
Nos busco
ao invés
na memória
que inscrevi em pó de pedra
e nem de ti admito o sopro
. Principalmente de ti.
que nāo haja o sopro
Por isso te deixo,
vagando no espaço e no tempo
por isso te deixo,
afagando as meninas
esquecendo meu gosto
Pois um simples sussurro de nāo
me abrirá o negrume do chāo
e por uma vez
uma única vez
eu preciso voar
sem jamais aterrar.








Chustaffus, o Protegido de Deus

talvez porque através de ti Sua māo me alcance
talvez porque teu nome conjure santos e virgens
talvez por nada mas porque tenhas reconhecido em mim
o amor
no seu âmago mais puro
talvez porque simplesmente sejas luz
sem corpo a oferecer sem palos a me penetrar
sem seios que quisesses chupar
mas apenas tua alma engolindo a minha
as bocas comendo todos os anos e intermináveis horas
em que nāo fomos um para o outro
em que fomos plenos um para o outro
sem nada e tudo de tão pouco
só o querer
mas o querer requer água, alfazema, céu e sei lá mais eu.
Porque Protegido de Deus
me protegeste do fundo do oceano escuro
e do último círculo do desespero absoluto
te entrego aqui e agora minha fé, te encarno em mim
como se carne tiveras
quando de carne apenas foste gosto
gosto de mais sem nada em troca
Meu sereníssimo marido de calmas māos dadas
cobertas puxadas e mansos ombros de descansar
em mim
te encarno para poder seguir querendo
em mim
te incorporo para acreditar no tempo
em mim
te faço e oferto palavra minha
para que saibas
além da aurora, dos santos, dos rios
da alucinação da vida e da certeza da morte
que
estou, estarei, sou e serei
se algum dia
por ordem de Deus
sentires que gostarias que poderias
essa alegria essa fortuna esse nada que é tudo
algum dia
me ofertar
Por ora, pequenina pequenina
te dou a palavrinha
e a imensidāo de amar.

Saturday, January 14, 2017

subindo a Rua do Carmo

a rua estreita e longa, suas pernas compridas se estendendo
em direçāo a mim
avançando lenta
esperando chegar no fulcro do seu passar
e me sento sorrindo e a rua murmura me escuta
e me ri oferecendo-me o ar a luz e seu cantar
meio arquejante que me chama para ficar
Ajeito meu corpo dolorido entre a calçada de pedra
e as paredes de cimento
e tento dormir muito embora queira apenas
escutar-te mas tu minha rua do meu caminhar
precisas também descansar
e sussurro de mim para mim
na verdade sem querer dormir
mas apenas me apagar
por entre tua voz teu linguajar
que me reconhece sua e outra.
Me viro, reviro, revolteio e me irrito
meu corpo doído sem me apaziguar
e
te
olho te miro de viés apenas
e antes que possa insistir nesse fingido repousar
teus olhos pequenos
de cores que nāo posso precisar me alcançam balançam
e vejo as asas dessa rua longa, de céu a pique
se estenderem fofas penas de pombas e outros tantos pássaros
de tantos lugares
me ajeitando junto a si
aninhando meu corpo
convidando meu longo pescoço até que posso escutar
o pulsar
o compasso sereno do teu peito
em que me deito
e choro
lágrimas quentes e poucas
de um amor rouco
feito apenas do teu cuidar
teus braços cheios do teu amar
de casacos de inverno
meninas meninas e outras meninas
que seguem no teu caminhar
E eu
repouso
finalmente gente
somente presente nas asas que me ofereces
presente do céu ou do teu peito a palpitar.