Friday, April 24, 2009

Construindo Germano Almeida, Nova Vega, 2008

O objectivo do estudo que aqui efectuaremos prende-se com a elaboração de uma síntese de algumas das abordagens possíveis à obra de Germano Almeida. A ideia que nos guia baseia-se na possibilidade de integração das várias áreas teóricas de estudo aqui em foco, de molde a alcançar uma nova e holística visão do texto almeidiano em conjunção com o mundo que o rodeia. Partiremos de abordagens literárias e terminaremos com uma hipótese de trabalho alargada ao ramo das ciências naturais. Pretendemos com este último capítulo abrir hipóteses de trabalho tanto ou quanto válidas como as primeiras, com a vantagem de obrigar o autor-leitor primordial desta dissertação, a signatária, a assumir um ponto de vista totalmente distinto daquele que tem caracterizado os seus estudos até ao momento. O último capítulo desta dissertação não tem como propósito questionar a validade das interpretações efectuadas nos quatro primeiros capítulos, mas sim o de apresentar uma outra e perfeitamente distinta hipótese de trabalho, hipótese esta que terá como objectivo originário o de apontar o modo como as abordagens iniciais, do ramo da teoria da literatura, se podem ligar a um novo espaço, mais aberto e harmónico, onde essas teorias possam encontrar um desenrolar distinto daquele a que nos habituámos, o de uma solução inexistente num mundo fragmento que mais não pode fazer do que reconhecer isso mesmo.

Horas de Lingua, Edit. Quasi, 2006, ISBN: 989-552-136-7

I. Em Casa

Ontem dancei nos braços de quem não sabe onde revoluteia
um homem negro
dançarino de outras danças e tempos
uma voz que não queria
Queria apenas o corpo meio quente
as pernas entre as minhas e não me enganar no ritmo
ou enganar-me e rir
mas não
não queria cair nem ficar presa nas pernas curtas e torneadas
de quem não sabia nada de mim
filha de ti
se te tivesse esquecido poderias ser talvez tu ali
mas não
era apenas outro homem que eu igualmente desconhecia
e dancei
a música de uma terra meio mulata a que pertenço de direito e alma
quero viver naquelas batidas
afogar-me na terra e na fome que me persegue sem que eu sinta dor na barriga
Em Lisboa
dancei
uma, duas horas talvez
uma, duas músicas talvez
apenas um homem negro de óculos grossos e um sorriso de loucura varrida
me poderia ter agarrado sem ter medo da minha vida
e depois o espanto
era outro
os óculos finos
as lentes finas
a camisa justa e branca
quase sem um sorriso
apenas um tom para dançar
Sim.
Quase que não ouço porque ele nada diz.
E danço.
Mal.
Tropeço.
Quase que não consigo sorrir.
Não sei dos pés.
Procuro-te as pernas mas as tuas pernas dançam longe das minhas ancas.
Não há como seguir-te
E mudas de tom.
Dizes
Espera.
E eu ouço.
Espero.
Colaste as tuas pernas às minhas.
As mãos suadas não sabem se apertam ou se fogem dos dedos azuis que brilham
Na ponta
Colaste as tuas pernas às minhas e é o respirar mais lento agora
as pernas apressadas mas certas
não há embates
Há apenas os pés no chão
Era preciso ter os pés no chão
E quando te sorri
foi para te agradecer o teres ficado ali
E quando sorri
foi para me desculpar de não ser tão tua assim
A minha terra não é aqui
o meu pai fugiu para muito longe e eu perdi-me por aqui
não estou tão pouco em ti.
Dancei comigo ontem à noite e sorri durante horas para a escuridão das paredes e dos meninos abandonados.

Horas de Lingua, Edit. Quasi, 2006

Geometria

desenho-me internamente
compro uma lente de aumentar e um enorme espelho
mas não vejo quase nada
compro então um enorme candeeiro
uma lâmpada de luz incandescente
mas está ainda tudo muito escuro
não vejo nada
desisto da caneta e do papel
desenhar-me-ei com cuspo
para isso pego nas tuas mãos
passo os teus dedos pela tua boca
chupas os teus dedos nas minhas mãos
e com o teu cuspo me desenho enfim
um mínimo concêntrico círculo
quase absolutamente oval
que o teu cuspo configura na macieza da carne
e sorrimos espantados
já que círculos de tão diferentes tamanhos
parecem criar
um lugar
ideal
um intermédio fulcral
um sopro
de natas e ovos
que batidos
e mexidos
fariam
o momento essencial.