Canso-me de tanto me refazer em segunda voz

Canso-me de tanto me refazer em segunda voz
crio-me na minha mesma criação lírica
esperando que a ópera se desenrole
à laia de filme de lotação esgotada
um final feliz à força de forçar a voz ao sim.
Mas retorna a memória de que o sofrimento é
sina minha e obrigo-me às linhas
escritas com lágrimas frias.
Ponto a ponto
vírgula a vírgula
aceito a nostalgia das camélias
para onde me empurras muito embora fuja ainda
de todos os outros braços que para mim se estendem
de todos os ouvidos que de longe me chamam
enquanto contemplo teu amor eterno que definha
frente à campa onde me enterras, viva.
Escrevo que irei para te agradar
deixando para trás a minha voz sumida
perdido já o dó de peito
em que ainda dizia que fazias de mim a mulher mais linda
Cansada, tento, apesar do tempo,
de novo, e ainda, a segunda voz,
onde quem sabe não se sinta tão triste
esta nossa dramaturgia.

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