Saturday, May 24, 2014

A minha boca em labaredas



A minha boca em labaredas
espera
e lombriga ardente
escorrega
e na minha boca
se arrasta e ferra
e cuspindo o cuspo da minha gente
por mim abaixo
escarro de insinuante lombriga arde

assim minha língua berra.


Faço o melhor que posso


(faço o melhor que posso
mas não se pode alcançar o cerne da energia
sempre)
Vão-se os fluidos em combustões erradas pelo ar
explodem
e propagam-se ao longo de milhares de quilómetros
faço o melhor que posso
mas não se pode controlar o espaço astral
sempre
e por isso vão por aí
labaredas de fogo
intensas
intensíssimas
onde a minha alma
se espalha através do ar
suplantando todas as águas do mar
e num incêndio incontrolável
se despenha
cauda de cometa
estrela cadente
nave espacial
aterrando soterrando rebentando
solenemente

todas as tuas barragens.

Deixa-me dormir amanhã de manhã Ivan


Deixa-me dormir amanhã de manhã Ivan
tenho frio e não me quero levantar
amanhã
debaixo dos cobertores e das horas corridas
durmo como senão chegasse o fim do dia
depois de  meses e anos a fio
em que sem poder
não dormia
não dormia
amamentava a minha filha
e hoje ainda
noite escura
e tantos anos de secura
incham os seios
sentidos bicos do peito
mamas que não cabem nas bocas
e eu
de madrugada te peço
sabendo bem que não há fomes
que eu precise afugentar
peço
deixa-me dormir
de manhã
tenho sempre frio de manhã

e não me quero levantar Ivan.

Fica aqui o corpo ainda chorando lágrimas

Fica aqui o corpo ainda chorando lágrimas 
as lágrimas caindo na lenta descida da face escorrida
por músicas onde me perdi na tua mente
no teu corpo de menino
envelhecido
e não ouvirei jamais os sons em que gravei a história
dos nossos dias de aporia
sem que este corpo se ressinta
e se esqueça
que não chora mais por amor mendigo
de porta à tua porta
este corpo caído no engano do futuro comido
numa cama que rangia
num colchão velho
que se pousou no pó
no corpo das madeiras velhas
carunchosas e carcomidas
não chora mais por amor mendigo
este corpo pó desfeito por mim em lágrimas
que esqueço

já não caiem.

A voz é como o canto das sereias

A voz é como o canto das sereias
e os acordes chegam vindos do mesmo mar
onde nasci
eu e ele e ela aqui na calma da sala calada
que ouve
atenta
guardando
para a eternidade dos dias onde não reconhecerá a nossa sombra
nas paredes
os acordes
a voz
o encanto indefinível da morte que nos espreita ao fim da noite
de madrugada esperta
e no correr do dia
amando
cantando
ouvindo apenas
no silêncio do amor que prometera não amar mais um dia
um único dia
ouvindo na bruxaria do encanto
do cheiro
da pele morna e quase
quase
quase igual à da noite que nos envolve em carinhos e delícias infindas
ouvindo ficamos
feitas mulheres da vida
que guardam o germe do próximo dia
o canto da tua voz morena que enche as paredes expectantes
da sala
da cozinha
da capela
onde jaz a morte que nos unirá aos acordes de mais uma melodia
ouço a tua voz para além da vida...


Só agora

Só agora

Só agora posso voltar aqui
através de um amor guardado em prateleiras escurecidas
de uma outra vida
em que me esquecera que era assim
foi preciso ver-te ali
as mãos finas e pequenas, tão pequenas como nunca vi
nunca tinha visto mãos assim
ingénuas e crentes
numa cara tão séria num olhar tão perto
num amor de ímpeto que reconheci
de súbito
ao te ler longe de mim em letras de um amor
lindo
corrente
fluido como as águas que durante todos estes anos
nos separaram de nós
nos uniram em nós
nos ligaram mães e filhas e filhas
e laços de sangue evanescentes em que reconhecemos
genes de gémeas puras jamais reconhecíveis em mães
que ainda não viram
jamais verão
os lugares onde cruzamos todas as nossas linhas
as linhas das palmas das nossas mãos
das minhas mãos
longas
impossivelmente longas
compridas
aranhas de dedos e mãos que se estendem sobre ti
sobre o teu corpo gentil
as tuas mãos de criança
os teus cabelos negros
como os meus
escondidos debaixo da mancha de um futuro sol
onde me abrigarei
contigo
em ti
semtigo
sempre contigo
das tempestades ainda não vindas
mas que chegarão
cruzando as linhas das nossas mãos
Benditas.