Saturday, November 21, 2015

dormiria

dormiria contigo só para te adormecer
acariciaria teu rosto sonolento
e ver-te-ia dormir
ver-te-ia apenas
como por entre as paredes frias
as camas brancas e a minha noite em branco
te vi a noite inteira.
redimidos da vida dormiríamos

fica a noite inteira

vem, entra, senta-te, deita-te, fica a noite inteira que amanhā
farei um aborto
um semi-nado
um increado
senāo vieres terei ainda assim que abortar
estou grávida de uma vida que arde ponto a ponto
senāo abortar é porque morri de parto.

e deslembra-te do que nāo foi

e deslembra-te do que nāo foi
porque o que é
é Gloria pura.
onde pude eu amar assim e assim ser amada sem nada, nada, nada
a nāo ser
a sussurrante
luxúria
da
palavra?

para sempre, obrigada.

aos poucos vejo-me agradecendo-te obrigada serena e cheia
de mil palavras
que me traziam sopros de outras palavras
que se colavam calavam e seguiam indo
nos meus ouvidos
em minhas pernas roliças
meus dedos esguios
e minha pele invisível a olho nu
aos poucos sorrio cheia de lágrimas
sorrio e beijo-te ternamente eternamente louca
do que podia ter sido.
para sempre, obrigada, pois isso ou nada seria.

nāo se estrague o tempo

nāo me venham para cá descortinar místicos sentidos
aqui só se fala do que está dentro
do que está dentro e mais fundo e longe e certo e aqui tāo perto de mim.
nāo me venham para cá descortinar nada
deixem as cortinas corridas o palco vazio e a rua nua
deixem tudo como está.
para que nāo se estrague o tempo
Meninos e Meninas.

vulgar

acabou-se tudo o que já tinha sido sem nunca o ser
como já na outra vida de uma outra qualquer já tinha sido
a vida é sempre igual
sempre tāo igual
que espanta ainda que doa a um e outro
aqui e além
a dor é tāo vulgar que quase me enxovalha.

Friday, November 20, 2015

vieste hoje de manhā pela madrugada mais lisa dos Invernos

vieste hoje de manhā pela madrugada mais lisa dos Invernos
e frente a mim sorrias, teus olhos serenos da cor do
que é o que seja o mar onde nos afogamos
vieste hoje pela madrugada incerta dos jardins da luz
da minha alma impura, inteira, tāo veementemente tua
(puta mentirosa) que
nāo tinha porque nāo to dizer
e assim vieste e falamos e tecemos o futuro apagado
quando de entrada escolheste o silêncio
nāo fosse a medusa
a feiticeira
a bruxa
a tigresa
que é doce de leite pastel de nata
já nem sabes porquê, já esqueceste o porquê
porque foi há tempos já
há tempos menino
há tempos que tudo isto foi
quando eu nāo podia ainda distinguir as lolas das leilas
que me cuspiam chafurdavam infestavam de suas doenças do mal
foi há esse tanto de tempo que eu esqueci tudo
ou quase tudo
Rogo ao Pai, ao Filho e ao Divino Espírito Santo que me deixem estar.
Mas vieste de madrugada cutucar no cortiço acirrar o boi
vieste hoje de madrugada.

agora que as entranhas se escancararam à mesa

agora que as entranhas se escancararam à mesa
e que me vomitei inteira sucos e sumos de mim
respiro fundo
a roupa fedendo já aos imundos jatos que das
minhas
entranhas
se tinham assim esparramado tāo certa a voz
tāo limpa a luz
tāo claro o amor do Divino Espírito Santo
pela Virgem Maria
- sim era amor aquilo, amor -
e de novo, vomitei.

Thursday, November 19, 2015

Por entre dedos

Sentas-te por baixo da minha pele.
Sinto-te e sacudo-te
Coço-me e arranho-me
Faço lenhos à flor das pernas
E ainda assim sorris,

Por entre dedos.

Wednesday, November 18, 2015

estranho

estranho a tua ausência por um minuto
e depois outro
e de novo a estranheza
da tua falta, como se fosse para estares aqui
tu que tão pouco sabes dos meus pijamas, das minhas drogas, das minhas escuridōes
bréu absoluto, ido,
penso.
senāo chegares a amar-me nunca, na pele
na tundra
nas entre pernas húmidas e lentas
amar-me-ás melhor?
senāo tiveres que saciar meu corpo perdido
terei fome? como a tua comida sem gula.
apago os teus versos infantis.
só esses. os outros guardo.
temo estranhar a tua ausência
Assim
mesmo sem nada saber da tua cama
ato-me aos lençóis
e durmo,
estranhando a tua ausência.
perfeita.
 

Tuesday, November 17, 2015

o olhar

és afinal o ponto de exclamação, as reticências e a polissemia
no teu melhor, como sempre me soia.
o que não me ocorria nem me afagava era a ideia da doçura
afinal nunca vós cozinhastes doces sobremesas pudins
mas sim pratos de elaborados cuidados e paladar invulgar
detalhes que também ocorriam concorrentemente
com teu gosto por minha presença ocasional raiada de vermelho
e negro
que fatal...
o que nunca vi, nem sonhei, nem esqueci - o último dito já do futuro que se anuncia
foi o olhar com que me presenteaste em pleno ao trovão da madrugada.
tal olhar teria sido há venturas idas - e de novo o futuro que se seguiria
mas
agora,,,,
agora é tal
que se me ajoelharam
duas lágrimas gordas
lentas, escuras,
talvez de açaí e de ternura.
agora é tal
que minha voz surda fica um pouco mais enrouquecida e eu soluço numa estranha agonia
quase deleite ainda dolorida.

Sunday, November 15, 2015

"e essa sede pode me matar"

criar reservatórios de perdāo de nada
onde o amor possa ser água e adiado
eternamente se refaça
em
perdāo
por pedires por minha ausência
como um bálsamo
te perdôo
pelo nada que me abraça na ponta da língua
em que me esqueces
nesses reservatórios de água que guardaste das minhas
entrelinhas.

nao serei tua amante como se o fora

nao serei tua amante como se o fora
de cada vez que me sentar frente a teu rosto seráfico
tendo sido já
atravessada em meio a ti
por ti
no som sereno de uma só palavra
nāo serei tua amante como se o fora
porque sou
fui
de dentro para fora
no pulsar do mar que me avassala
como as ondas do Tejo
em meio ao mar
fui
frente ao som de apenas umas quantas palavras.
só por isso
nao serei tua amante como se o fora,
porque assim é.

Friday, November 13, 2015

e quando?

e quando se acabarem as palavras? e quando o que era para ter sido
nem mais tanto isso for? o que será de mais um passo em cima do andaime?
o que será que assim flutua em meu ser para sempre enviesado
entre a língua da frincha
da fresta
da festa? o que fará minha almita pequenita de Adriano Amado
esta almita tão meiguita
que fará?
(que fará?
que fará?)
por enquanto nāo durmo. embalo-me no gozo e no delírio
do latim
que imagino
soa
de tua boca. ausente.

a puta de Camōes

Há muito muito muito muito tempo
quando Camōes ainda era nascido
e
eu
era
puta gloriosa em seus versos sentidos...

na tua

quero comer-te beber-te tragar-te molhar-te de saliva e sal e de novo comer-te
deixando-me
tal qual
mousse
soufflé
suspiro
na
ponta dos teus dedos encharcados
de
tanta boca.

ca-la-te

ca-la-te
ca-la-te
ca-la-te
menina
come
e
cala-te
psssssssiu...escuta o silêncio alado do riso que abafa o quarto.
como-te.
como te como.

tua língua?

uma linha uma palavra um ai
e
chovem as chuvas tropicais do meu pais amado

orfā que sou
de pai e māe
choro a chuva das três da tarde

após tarde após tarde após tarde
a insanidade de ser normal como o mal e o bem que me fazes
a cada linha
cujo sentido mais reto nāo vejo a cada vírgula cujo percurso me aborda a vez e a hora
pergunto-me
se me
poderias
destruir

porque
nāo falo
tua língua?

e se chorar toda a noite e mais um dia?

e se chorar toda a noite e mais um dia? e se me deixaste chorando até que
se calem
todas
as
cataratas todas as cataratas di-lo devagar di
lo
de va gar
e
degusta
o sol ensolarado
na
minha
boca salgada
que como o mar
alcança o teu mar
de Quevedo a Antonio Vieira.

de repente preciso guardar todas as palavras

de repente preciso guardar todas as palavras
como se houvera um risco imediato
uma tragédia eminente
e eu pudesse perder
o pouco que me resta da beleza de amar o ar que afaga a lagoa em que desmaio
de sssssss e zzzzz e sibilantes e vociferantes
como gritas às vezes
frente
a
mim
e eu absurda inquieta egoísta inapropriada inapropriada só ouço o silêncio
o silêncio
o silêncio
que afliçāo se de repente nao foras
nem eras
nem nada houvesse porque escrever amanhā e depois
que afliçāo
meu Deus
meu Senhor dos Navegantes
meu Divino Espírito Santo
valhai-nos o Altíssimo e eu possa ainda guardar
e quiça até
resfolegar
na palavra.

siempre me gustó el silencio.

siempre me gustó el silencio.
acompañado de una mirada quieta,
mejor que mejor.
o espaço do silêncio
cheio de vozes.

as palavras prenhes
llenas de vos
Hazte a la idea de que,
como un niño,
esta página está llena de Voses.

guardo o arrepio da voz
entre as palavras

sussurradas entre as gotas de água e sal
No esperaba menos de vós
espaço do passo essencial da ausência
dou-te o corpo de minha boca
calada

la palabra

Mejor no preguntes. No lo sé.
Algo sí sé:quiero tu palabra, nada "oca". 
Sé que es xyz decirlo,  
pero siento que tu palabra me da la vida, 
como me hace seguir adelante el quererte así sea solo a través de la palabra.  
Dar-te-ia a palavra e tudo o que nela albergo fosse de noite                                                                                                                         fosse de dia 
pois vê, 
já quase esquecera a gloria da lingua  
que
quase
nos
uneedesune.
A perfeiçāo de termos apenas que murmurar.

ahhhh como posso chorar agora como posso chorar

ahhhh como posso chorar agora como posso chorar
clara de alegria e loucura despedida e chorar apenas chorar
até que minhas lágrimas coladas águas sobre mim
transparente a pele agora ao rés de tua boca
choro calada embalada na alva com que abençoas meu passar
tāo rente ao chāo e tanto ao mar
rio
rio
de águas e sal meu corpo embaraçado da palavra agora mesmo nascida
treme
e
alvoroça-me-se-alvoraçaaaasemeealva
alva
e
húmida
é
minha lágrima que brinda.