Tuesday, May 30, 2017

sem bússula

me agarro com todos os pelos todas as unhas
todo o ar que atravessa tua boca de tanto respirar
dentro da minha
e
me afundo sem boia de salvação
nem bote salva-vidas
à força de tanto inspirar a certeza
com que finalmente me deixo baldear
qual escuna entregue à sorte do mar alto
ventos
e o apelo
evidente
do horizonte aberto
rumo às tuas ilhas

te beijo te agarro repouso e me enlouqueço

te beijo te agarro repouso e me enlouqueço
de novo
te quero e pergunto e não falo
e só sinto
a presença intensa
a alma profunda
o coração apaziguado apesar da turbulência
em que continuamente me movo me abalo me adormeço
e vejo
por entre os olhos abertos
vida vivida e não sonho de vida
me vejo
por uma vez
linda e perfeita
feita para te fazer feliz
enquanto
conquanto
para sempre
com tanto
me queiras como queres

por uma vez

por uma vez sem medo por uma vez sem
a porta
fechada
por uma vez de coração na mão
e as calcinhas penduradas
por uma vez sem voz
nem gritos nem ameaças
por uma vez não tenho mais a dizer
a não ser o teu nome
e que
para sempre
e para nunca mais
sou
tua

Saturday, May 27, 2017

o silêncio da tua ausência

encho o silêncio da morte com o borralho
que espalho sobre mim
que sendo feita de areia e sal pouco mais ganho
que um suspiro às vezes espirro  
mas que afogada nas cinzas amadas
me transfiguro em morta ressuscitada
pronta para de novo amar e ser amada                
mas o silêncio da tua ausência no meio da estrada
esse
ressoa mais alto do que a morte atropelada
e mais rápida que à força de um tiro
desvaneço-me esmaeço e rareio-me
em grão de areia grão de sal
sem que saudade me revolva e reviva
pois que nessa morte matada para que quero eu
escutar o uivo do vento que açoita o salgado deserto    
da minha alma?
porque hei-de eu ser gente se tu nem me dizes
bom dia na morte da tua ausência
chorada no meio da estrada?



Thursday, May 25, 2017

um barco abandonado

a ironia de que venha de mim
para ti o pouco tempo que te pedi
e do qual fizeste promissória
em triplo e
sem assinatura em baixo.
silêncio e tempo.
que eu espere
por quem não ficou
no cais
quando as ondas iam e vinham
e do barco era certa a vinda
a não ser que tormenta
lhe acabasse a vida
ainda assim
digo-te que sim
e ofereço-te o presente que te pedi.
apenas para te provar
que estou aqui
e que no devir dos dados
a ausência que me imputaste
nunca foi míngua
delito
ou mágoa
mas apenas o horário das partidas e
das chegadas
que não alcançavas
do topo da previsão da falha.
que como tal
se verificou
em alta.
Maior ironia seria ainda
se no rolar dos mesmos dados
me disseres que sabes que não estarei aqui
apenas porque preves o mesmo desfecho
com que vejo o barco
no horizonte parco
perder a vela
o prumo
e a bússula
que se te aponta
no minuto em que chegas a mim

meu corpo ondula

meu corpo ondula
tu titubeias
tapa a boca
escuta o gemido
surdo
que se escapa
do esvoaçar
das nossas línguas
asas beijadas
que drapejam seu pensar
tal qual
nossas pernas
feitas
tronco vivo um nódulo
de saber
sem elocução
A erudição
do
nosso corpo
nesse concerto surdo
te dirá
quando Agosto
se fizer Inverno

Wednesday, May 24, 2017

deitada na cama

deitada na cama o dia inteiro
não como
não como por dias a fio
alimentando-me do que restou dos teus olhos
pousando e sorrindo sobre
meu corpo
ainda cheio
do teu cheiro
deixo-me ficar
quieta na memória de uma sopa
de pedra que se incrusta
na sola   do   teu  sapato

Tuesday, May 23, 2017

tão cansada

sinto-me tão cansada 
    e no entanto aqui está tudo, fechado dentro de mim 
    e deste corpo surdo, desfazendo-se em vias paralelas, 
sobrevivendo acima das ruínas deste mesmo filme 
reprises de uma piada velha da qual apenas eu rio, 
na madrugada de um café sujo no meio de Lisboa
rio
rios
enchentes
enxurradas de risos inteiros
sem um guarda-chuva e visto que foram
arrastados os anos até aqui
lavo-os seco-os borrifo-os passo-os a ferro
e arrumo
tudo
e
Deixo-te tudo 
Neste pequeníssimo espaço
deixo-te o que sou de
gente
deixo-te ficar
o tal riso arrumado de outras eras
o pouco siso perdido de outros sismos
e umas palavrinhas
Sobra-me o tal rio
que escorra ou não uma gota de água
corre
deste corpo
tão cansado, já, tão cansado que parece impossível
que amanhã
ainda te diga
bom-dia

Monday, May 22, 2017

imploro-te

é tão tarde amor, já devem ter caído os pilares da casa
e com certeza que o telhado se afundou sem som
por entre a vizinhança seca e muda onde apenas
o martelo ecoa
e os pregos se apregoam materiais viventes
sobras das chagas em que nos empalas

cinquenta anos passados sobre o desastre
em que me ergui
qual cruz na Quaresma esperando-te com tanta calma
imploro-te
é tão tarde amor, e se assim te lo digo
à guisa de gemido
é
porque ontem
assim, de repente,
por entre os teus dentes na minha pele rasgada
haja canivete haja faca

percebi. que querias ouvir-me. assim

meio implorando meio arrastada
meio choro meio medo de tão sabida porrada

é tarde amor
porque não caiu ainda a casa?

Adiante

serás mais um dos que se iam mas nunca foram
iam empurrados pela porta de trás ou empurrando a porta                                                        da frente
mas sempre
ficando por entre os armários
escondidos nas bolas de naftalina e nos chocolates
de ginja
ali ficavam ali estão
chorando pelo amor que lhes dei com gosto
e com tudo o que tinha
e mais ainda tudo o que não tinha
mas fabricava com carinho e apreço
cuidado e ternura
amor eterno destinado às estantes das bibliotecas
duras
Vinte anos adiante, se até lá contares
terás ainda o gosto da saliva que me passaste às escondidas
por entre lábios e línguas e uns poucos dias
Vinte anos adiante
como todos
sem exceção
dirás meu nome baixinho e ouvir-me-ás sorrindo
só porque te vejo do outro lado da calçada
e assim será
pois que assim foi
e a vida segue repetindo-se sem graça
. A não ser que Agora
por algum golpe de mestre
Sejas o que não Vai.


Sunday, May 21, 2017

gostava de saber se te amo,

gostava de saber se te amo,
gostava de saber de que é feita
a minha inocência quando quero gritar aos quatro ventos
aos pontos cardeais e aos anjos que te amo sim
que te quero com tanta veemência que não me importa

se ainda tenho ou se alguma vez tive salvação
possível neste deserto de água benta
onde faço o sinal da cruz
cada vez que ressoa o teu nome
no horizonte
do meu pecado mortal
gostava de saber se te amo,

Saturday, May 20, 2017

verde

eu era boazinha
ao contrário do que diz a minha irmã querida
eu era boazinha
agora não é que tão pouco seja mazinha
mas parece que quanto mais quero ser melhor
do que sou e era
mais parece que a hera cresce e se tece por entre
as grades da janela
atrás da qual há anos
me enclausurei
apenas
para te evitar o sofrimento
de me encontrar assim tão de súbito por entre
o teu
jardim

vou dormir

vou dormir confesso
procurando esconder as pernas
que se agitam entre um balé imaginário onde
nem pé nem perna se inscrevem no palco absurdo
da cama
vou dormir repito e
não quero dizer nem mais um ai
não quero dar-te nem mais um suspiro
só quero que durmas comigo


estarei

estarei aqui sempre para ti seja de noite seja de dia
na calada da aguada estrada já fria
do inverno que sempre se aproxima
ao virar da esquina
estarei aqui para ti como se fora pinheiro
perene natal de todos os meninos
e todos os meninos
fosses tu
com esse olho que não sei se é verde se é azul
se tão escuro da minha sombra
que talvez até preto seja
não sei
mas sei que estarei
serei
ficarei
pois não há o que fazer
com a minha natureza

the smell

the smell stenched through the room
in spite of the candles, of the love making
of the movies of the dancing of the sheer
whiteness of the sheets
and the pink rugs
in spite of the music that lullabied them to sleep
after hours of reaching for clouds
with the tip of their tongues
in spite of that the smell of
something rotten pervaded the walls
the floor
and the ceiling of the entire house
Once again she went to the balcony
and stirred the flowerbeds lightly
pushing the baby's body deeper
in the soil

Thursday, May 18, 2017

tens a certeza que não nos queres?

tens a certeza que não nos queres?
conquanto o silêncio seja eloquente
o teu corpo - nos raros momentos em que
de último
bate à minha porta
fala em brados gestos transcendentes
que nenhuma língua explica
e que qualquer língua expele
seja em cuspo
seja em memória
de dentes quase raspando quase escarrando
a última fricativa
e digo-te tudo isto
de cadeirinha
já que o meu corpo
de último
asfixiado
quando de graça te imagina
à minha porta
ganha a iniciativa
redime-me da falta de ar
e faz-se meu tubo vocal.
Pergunto-te outra vez, para que não tenhas dúvidas,
tens a certeza que não nos queres?
é que a cada dia
que passa
vamos perdendo
mais uma palavra

entre trancos e barrancos

entre trancos e barrancos levanto-me quase até
ao céu
entre mim e o azul da vitória só a tua boca
que me espanta de tanto sorriso
fico quietinha como uma ratinha
defronte do queijo
antecipando o momento
em que te afastas
por um segundo
e
eu no limite da nuvem
que já se estende defronte da tua janela
tropeço
na eternidade do fiapo de uma memória perfeita
feita do teu sorriso

Monday, May 15, 2017

ida e volta

estou indo, já pronta para partir
muito embora as cordas com que ato as calças
       se embrenhem entre pneus e travões
e subitamente eu me veja desnudada esparramada no meio
da estrada.
mesmo assim estou pronta
ferida arranhada suja e fedida
tonta de tanta queda por entre os caminhões
mesmo assim
estou pronta.
mas te dou a dica
se quiseres
ainda tem tempo para tocar fogo na casa
me encharcar de gasolina e acender um fósforo
tem tempo ainda
assim
não precisarás te afligir com a hora da volta
o pânico da chegada

Saturday, May 13, 2017

conheço estas casas, estes rios

conheço estas casas, estes rios
estas chuvas, este frio
conheço esta alucinação
tremenda
esta fascinação negra e azul
rasgada de uma ventania de sul
que me pega por baixo da saia
e me levanta
em gritos
desde este buraco onde te explico
até às calçadas de Lisboa
que me esperam
de saltos em bico
de pedra em pedra
sapatos finos
e peitos escorridos
assim me hei-de chegar
até Lisboa
enquanto
tu pintas
a outra
e a tinta se espalha
azul e branca
por entre a escuridão da cama
que te espera
de pernas abertas.


diz-me

diz-me, e se de repente as estrelas se desalinham
inteiramente?
e se, de súbito, nem a Virgem Maria nos vale
em orações, em peregrinações de joelhos, em terços
repetidos ad aeternum?
diz-me? o que será de nós então?
Não espero em silêncio
e nem tão pouco gritando
Atiro-me da janela
do décimo primeiro andar
e depois
pede-lhes que apanhem os pedaços.
Mas guarda-me a cabeça
deposita-a no altar
sabes bem que os cabelos
são um sonho de se anelar.

Friday, May 12, 2017

love

between love and honor love will kill you
between love and power love will kill you
between love and treachery love will still hold
the higher seat
thus I alone
sit
and will surely
kill


Thursday, May 11, 2017

comigo

um jogo doentio em que eu mesma me esventro
espalhando os pedaços por sobre a mesa
mas sobram dedos e gritos
agradeço aos meninos que limparam
os pratos e os talheres com tantos cuidados
como se eu fosse luz sim
e não este emaranhado de fígados rins pâncreas
e outras coisas afins
que sobre a mesa
conjuntamente com a cabeça de porco
que cortei ontem
na calada da noite
entre os meus guinchos e os do infeliz
simplesmente são carne
carne de cortar e comer e cuspir
carne de facadas a lâminas rombas
para que alguém coma
ou talvez chore
comigo
e o porquinho

Tuesday, May 9, 2017

and how does time eat its own tail?

and how does time eat its own tail?
how do you come back from the walls of the dead
to bar my heart from fear and doubt?
the answer has been given
in sound silences and contradictory bodies
that rock into lullabies of lies and mischief.
I dare you to walk through the walls
and face your light as it spreads from the river
of souls
to the river of mine.
Stand and scream for your death is but a dream
designed to keep you ensnarled
tamed and resigned.
I, however, sit on the other margin of the bank
and with one hand
drown the heroes
strangle the fools
and whip the weak

and again sit

forever alone.
for the one who can face me hides his shining light
underneath the muddy walls
and there he intends to stay
as being buried is by far better than facing that eerie
woman, half mouth, half tail
who sits by the river bank
eating up time and swirling its own shade.


Saturday, May 6, 2017

me dói

me dói por dentro, por fora, à superfície e fundo
no descaso com que me tomaste inteira
pela frente, pelo verso, pela prosa e pelo

me dói tanto que me sento na beiradinha
da cadeira da penteadeira
arrancando uma a uma
as pestanas
que barram
o sangue
que escorre
do canto dos olhos
zonzos
parabéns

sim é para ti que escrevo

sim é para ti que escrevo
como me perguntavas às vezes
procurando o pus nos meus olhos furados
te escrevo enquanto a casca da ferida mole
alastra lepra infecta pela minha pele
que mal se acha já entre a carne apodrecida
que antes ronronavas entre dedos e beijos
fedentos de quem se mentia do amor
que me tinha
Mas já o sabia
e como te dizia
não temos o que escolher
a vida é assim: um monte de carne
outrora linda esperando apenas a morte chegar
enquanto apodrece ao sol
ainda viva

Adeus, vou para não voltar

Adeus, disseste, soletrando cada letra
enquanto puxavas o anzol
devagarzinho, rasgando a carne com requinte
limpando os cantos da boca com deleite
metendo-me um anzol em cada poro
por cada sílaba em que te vi
torto
por cada sílaba em que não me ouviste
morro
agora sorris
morres sim
mas ao meu belo-prazer

Thursday, May 4, 2017

carne fresca

te esconde por debaixo da minha pele menino, falei
grosso, curto, entre logo de uma vez
e lhe dei a faca afiada
a que a gente usa para cortar cobra amarrada
e menino mandado me cortou de alto a baixo
e enquanto o sangue escorria
quente e linhoso
se acercou
menino feito peso dourado e
afundou certeiro e liso
por entre meu desfiladeiro de entranhas
carne aberta macia e cheirosa sangrenta
e fresca em golfadas
despudoradas de ganidos sentidos
e ainda ligeira lhe roubei a faca
e cortei mais fundo
minha pele se esparramando no chão
e seu couro limpo se encobrindo
nossa estranha gestação