Wednesday, September 27, 2017

segues reto pelos recôncavos e baías

segues reto pelos recôncavos e baías
que permeiam meu longo vestido onde teus dedos
levam meus joelhos
tremendo ao genuflexório
de todas as trezentas e sessenta e cinco
igrejas da cidade
por onde pairam
todos os anjos destrambelhados
entre teclas e cordas
que não há
quem reja.
sigo subindo ladeiras e escarpas
mirando do alto
o mar onde abraçamos esse rio tão frio
de canoas a flutuar e
árvores de redondos frutos
que teimam em escorregar
e esparramar-se leitando-se
mornos por nossas bocas
encaixadas em nossos
sonhos
de corda
que sem medo
transitam soltas entre o meu vestido
e os teus dedos de seda encaixados
na perfeição dos
nossos nós.
não resta mais que
apontar-te o céu onde te elevas
no enlevo do vestido
enquanto
tocam anjos e se afinam santos
pois por entre o vestido a seda e os nós
o que se espanta são os dós de peito
que trepam pelas bocas
nossas
sem medo lambendo o tempo

Tuesday, September 19, 2017

assim repito meu canto

a ti não amo e por ti paixão jamais
conjurarei
de ti não me vem amor nem pranto
por ti não respiro nem clamo
assim repito meu canto
noite sem luz onde sem vez
me chamo à ordem dos segundos
fatídicos
onde se ordena a cadena certa
o terço sem nó
em que enrodilhada no teu olhar distante
laço longo de atar-me ao pasto
onde a grama é alta e a cerca é
passo sem muro nem jardim
me vejo assim
pouco mais que um sorriso
que mal esboças nesse fandango
em que não nos tocamos
nem no princípio nem no fim
simplesmente porque
a mim não amas
e por mim não respiras nem clamas
assim repito meu canto
lugar de ser gente
em mim

Monday, September 18, 2017

os longos dedos escuros

os longos dedos escuros estirados sobre
a pele crua
onde poderia dormir meu peito
se os olhos não buscassem
a sombra dos teus cílios
que se estende infame sobre
meu sono
leve
onde amarras
raízes de samambaia que
estranhamente
nesta casa
se erguem em direção ao céu
que cresce na minha boca

Sunday, September 17, 2017

sendo o céu de um azul pérfido e

sendo o céu de um azul pérfido e
nuvem tão branca quanto as asas
do anjo
Gabriel
viajo dia e noite até às reentrâncias
da cidade velha, Havana
que vi tão perto que alguém me chamaria
cubana
mas não sou de lá nem de lugar nenhum
que do céu mais
puro e pérfido onde o agora
o ontem e o jamais
se diluiem rumo ao regato
de um hiato no vago
contorno de um abraço
onde poderíamos ter
sido
o que ninguém brada
aos sete ventos
mas Virgem
avisada calada e certa
tão linda quanto pérfida
cedo ou tarde
roubarei a trompeta
e troará o silêncio que nossos nomes ecoa

Saturday, September 16, 2017

meia hora

quando abro a boca e o vermelho
jorra abrindo raios de luz ardente
e se afogam todos os dias em que
não te verei jamais
sinto meus pés
caminhando lépidos sobre as pedras
rubras a incandescente lava
que lavra a palavra no papel
branco onde a mágoa infinda é feita
de
um
ponto
de
luz
que posso eu dizer-te
quando rubra me arrebento
na voz tão cravo e esse
cheiro de um canto de meia noite
e meia
onde não poderei jamais
dormir?

Thursday, September 14, 2017

trilha sonora

tropeçando antes de subir o degrau
ascendo até o terraço mais alto
enquanto tuas mãos me alcançam
me puxando pro chão
que balança num ritmo
diferente entre o céu e o meu
coração
meio nublado meio sorridente
ainda tratando de seguir na frente
sair antes da estação
se alçar adiante
do
sol
que já te abraça
de cabo a rabo
deixando uma trilha
sonora tão enternecedora
que choro de gratidão
porque sem borralho sou achas
que acendes
nas rochas tochas
ardentes
onde me faço rósea
riacho e rouca
de tanto gemido
que me vem da tua boca

Tuesday, September 12, 2017

o fedor

entre a cascata e o esgoto cheio das vísceras
que encontrei no meio do teu peito
descubro que escolhi a água podre
pronta por meio das tuas mãos moles
sapos que arrulhavam no fim do mercado
na praça suja por onde me meti
à caça de fruta fresca vestida de jasmim
eu tão longa e nua no algodão doce
da minha longa camisa de dormir
onde me engano que sou minha avó
e que me amo
Entre a cascata rolando gloriosa
por trás das montanhas
que subi a pulso
encontrei tuas vísceras boiando
entranhas cheias de bicho
que quase esgotaste dentro de mim
eu tão amante que fazia o que sempre fiz
me vomitando para que a fome não te alcançasse
e já tudo acabado na podridão do teu corpo
desleixado e eu ainda
me desmanchando pingo
de creme de leite de doce de côco
que engolias a rojo como se eu fosse me acabar
na tua boca
Eu tão longa e nua que me suspirava
e sumia defumada lentamente
princesa dormente urna de cristal
que no final dos finais não há quem acorde
pois minha avó me espera
e aqui é só o fedor do que chamas
amor


Wednesday, September 6, 2017

se Deus me abrir as portas

quero subir aos céus de novo
na novidade de um querer tão claro
e puro que Deus abra as portas
e eu entre
perfeita menina de novo amando
os teus passos tortos
e tuas pernas enviesadas no passeio
da minha vida.
eu luz e lírio
sem olhos nem noção do norte
a moção da sorte largada
por entre teu caminhar
sigo
esquecida do espelho
da sala de jantar
onde os querubins cantam
sem nunca se queixar
do reflexo parco da minha sombra
escura
que implora meio rouca meio puta
meu Deus
me deixe subir aos céus de novo
perdida nos passos de seus pés apertados
nesses sapatos cambados que ainda hei-de arrumar
se ao menos Deus me abrir as portas
só para depois me estatelar

noite escura

me pergunto qual a direção do teu olhar
enquanto desapareço pelos sonhos dentro
e tua voz já soa sincronizada e funda
por entre lençóis amassados e esticados
amassados e
esticados
enquanto me pergunto o silêncio perdura
tua voz corre surda e cega
e eu apenas eu
boquiaberta
estupefata
face à penumbra dos teus olhos
embotados de tanto ser certa
a nossa noite escura





Sunday, September 3, 2017

ri tanto

ri tanto quando me dei conta que não estavas
lá que o riso ecoou solto pelos umbrais das minhas
asas
que há muito não roçavam o chão do céu
onde me espanejo
agora
tão ridiculamente alada
que nem sei se eu era de verdade
ou se vinha lá do fim da estrada
quando se acaba o conto de todas as fadas