Friday, January 29, 2016

Declaração

Declaro definitivamente que aqui se acabam
as lágrimas, a tristeza, a esperança sobre o corpo
moribundo
fedendo já, dada a natureza absurda do ser humano.

De ora em diante, te adoro, desdigo e  des-largo
enquanto o corpo se arrasta se entrega e goza
à delicia escusa da carne alheia. 
E devagarzinho morre como previsto
no Livro das Horas.

Aqui juro, de joelhos, que nem corpo nem lágrima
nem gozo abjecto te ofertarei.
De minha boca, apenas a minha língua
o riso e o instante fugitivo
de quem te faz poeta
muito além do comezinho.

Assinatura em baixo
ilegível

Saturday, January 16, 2016

menina

obrigada pelo nāo e pelo ai com que me brindas
eu, que em silêncio morro dia após dia
agradeço-te o fim que se estende em agonia
as lágrimas que como como quem te comeria
e tudo o mais que só quem chora como uma menina
ainda guarda entre os dedos entre a alma e o que seria
nāo fosse o desencontro do dia e o pavor da afazia
fugiria para onde nem minha sombra contigo se cruzaria
fugiria para onde me nāo visse nem nos espelhos da vida
e nem nas águas onde um dia me afogaria
este verso sobraria.
Leva-me para onde te nāo ouço nem grito
nem o tempo nos consome o amor com que te amaria.

Tuesday, January 12, 2016

minha irmā

só minha perene irmā linda e louca e de cabelos negros como uma serpente
que tece a manta de família
me estende a māo me dá a vez e me alumia no deserto do gelo em que nāo sou eu
nem nós nem laços nem estreitos peitos nem gente que se entende no soluço
curto
em que me embala seu canto inaudito de māe que nāo tive e de pai que nāo queria.
minha irmā mulher penedo rocha e riso me guarda do medo imenso e da falta da
saída do dia que encurto esmigalho aperto e qual porta arremessada à revelia
reverbera como cobra d'água signo do espasmo incessante em que já se fazia
menina
e que eu
ainda
agora
mal sei o que seja a nāo ser da alegoria
minha irmā me aguarda entre as paredes de alvenaria velhos vizinhos e coisas de
alegria
mesmo que mais dia menos dia me arremesse contra a porta que bramia.
minha irmā
que nunca se contraria.

Sunday, January 10, 2016

em poesia

fico-me na ilusāo de um silêncio endemoninhadamente negro
em que as vozes do que jamais serāo meu guia
seguro-me às paredes do quarto antes que a casa caia
irremediavelmente
e a tua cave me engula na imensidāo da morte
onde encontrar-te nāo creio pois que mesmo em vida
te deixei cego horrorizado de ossos mal lambidos
tendōes expostos ao gelo que queima absurdo e branco
e nada mais
que água
pronta
à estúpida Primavera em que viverás incolumemente cego.
cego. cego. pois que tal como temias comi teus olhos e
chupei-os lentamente e cuspi-os
à luz do dia
onde me faço a monstruosa mantis que te agradaria.
Serei assim orgia bacanal ensandecida possuida alagada das gândaras
de sei lá que gente que deveria ser a minha.
Seja assim
ao menos
em
poesia.