Pará(grafo)

deixo que as palavras fluam
enchentes, imensas, transbordantes
para além
dos rios que correm em direção ao mar.
Quero fazer-me supérflua na palavra
nua
assim tão lisa e pura
que nem tu a possas alcançar,
e nesse ínfimo
inexistente desejo
que ninguém pode palpar
já fui e voltei
perdida e absurda pelas orlas do teu rio
que oscila em pêndulo contido
- haja mar haja mar
que te possa esperar.
Apago então todas as palavras;
minuciosamente,
aquieto-me.
Calo-me.
faço-me muda
no terror inominável
do meu verbo jato
vómito
negro
onde a sombra do meu passar repousa...
às vezes mar
às vezes lousa...
e por isso temo
e por isso tremo
E porque sei de longe,
de amanhã e de hoje,
o quão melhor se morre na areia
quase rocha
quase murcha,
do que se morre em frente ao mar.

deixo que as palavras fluam
enchentes, imensas, transbordantes
para além
dos rios que correm em direção ao (a)mar


Comments